CÉU CINZA

Os dias passavam como uma brisa gelada, percorrendo seus cabelos longos e judiados, e apagando a chama que Aurora tentava manter acesa dentro de si, em vão. Ela se esvaía, lentamente, às vezes parecia tão perto de apagar que o alívio surgia, sutil. Então, ela tornava a acender e a dor retornava, pior do que antes, pior do que nunca.

Sonhos estranhos perturbavam o pouco de sono que possuía, a exaustão mental se alastrava como uma praga pelo seu corpo. Não havia memórias da última vez em que conseguira sair da cama para fazer algo realmente útil. Impossível negar como inutilidade assombra a humanidade; abriu os olhos, já é dia. Era dia quando adormeceu; é sempre dia, mas é sempre escuro também.

Houve um tempo em que as cores eram vívidas, intensas; agora tudo mergulha em um pálido opaco que lhe dói a vista e a desmotiva. Nem o sol parece brilhar mais; ele torra sua cabeça, um calor abismal, mas não tem mais luz. Se a culpa lhe pertence, já não sabe; seu descanso se reserva a se culpar por ingenuidade.

E se doía antes, o mal que a faz agora é descontrolado. Ódio floresce em seu peito, mãos trêmulas, lábios feridos, ela é como um lobo ensandecido, o rosto mergulhado em dormência. A dor, a dor, a dor! Que falta de amor sente agora, a apatia lhe sobe as entranhas, o desespero brota em seu peito como uma flor perdida em meio a um terreno baldio. Deus, como gostaria de chorar! As lágrimas, contudo, não descem.

“Olhe nos meus olhos” repetia, encarando um espelho sujo num banheiro branco demais. Gotas de seu sangue decoravam a pia, escorrendo do antebraço. A palma suja de Aurora estampava o reflexo, vermelho-escuro que sobrepunha com perfeição seu rosto pálido, magro; olhos da cor do céu durante o crepúsculo a miravam de volta, um olhar morto e perdido. Um olhar de um soldado que retorna da guerra. Aurora parecia-se com alguém que voltara de dez delas.

“Olhe nos meus olhos” ela murmurou, os lábios estremecendo; um tom de rubro doentio lhe tomava conta, cada vez que ela mordia o lábio inferior. Seu punho direito se chocou contra a delicada lâmina, rachando-a. Aurora agarrou a borda da pia e berrou, apertando com tamanha força que quase quebrou seus próprios punhos. Outra vez seu punho direito foi na direção do espelho. Uma vez mais, uma vez mais, uma vez… Respirou fundo, tão fundo que percebeu que quase se esquecera de respirar. Cacos do espelho espalharam-se por todo o banheiro, refletindo raios de luz para todos os lados. Sangue pingava das suas juntas agora, pálidas e feridas; ela abriu as mãos diante de si, olhando-as com um apatia quase cruel.

Dedos finos e tortos, lambuzados em um líquido tão vermelho quanto o pior dos pecados; sentia tanta dor que uma ferida a mais não lhe importava. Trêmula, beirando a loucura, Aurora aproximou uma das mãos à face. O toque gelado pareceu sacudi-la de seu estupor por breves momentos. Olhando para o espelho destruído no cabinete, sua mão deslizou pela própria bochecha; um rastro de sangue marcou-a, porém, pareceu mergulhada outra vez em delírio.

Ben, Ben, Ben… Olhe nos meus olhos, desgraçado!” ela murmurou, tão baixinho que mal ouviu a si mesma. Tudo girava ao redor de Ben, todas as dores e lamúrias e desgostos; ódio lhe consumia, Aurora sentia, cada vez mais longe, sua habilidade de sentir. Esperava que morresse quando finalmente se tornasse apática; não suportaria continuar vivendo plenamente vazia.

O toque de Ben era uma lembrança alarmante, que lhe pegava desprevinida, na calada da noite, quando estava ocupada demais se embebedando. Era uma memória gélida que fazia seu corpo arder, em fúria e em desejo; descarregava as emoções nas paredes do quarto, nos partos e copos. A dor que sentia ao lembrar dele era como se cutucassem sua mente com ferro em brasa; seu corpo inteiro se tornava inútil e dormente. As lágrimas vinha, como uma cachoeira, e junto do choro desolado, vinha o grito gutural que prendia na garganta. Aurora se sentia como um monstro, prestes a se transformar e destruir tudo ao seu redor.

Você é como… uma estrela” Ben dissera, certa vez, numa época em que ela ainda não morrera por causa dele, como morrera tantas vezes mais tarde, todas as noites de todos os dias. “Um monte de energia concentrada, irradiando luz e calor e beleza… Mas eventualmente, você vai implodir e vai levar tudo ao seu redor com você.”

“Até você?” ela proferira, com uma suavidade que já não existia mais em seu ser como um todo. Sua alma se despira de tudo aquilo, ferida, corrompida. Seus olhos mergulharam nos dele, como faziam todas as vezes em que estavam juntos, harmoniosamente caóticos. Naquela época o toque dele era elétrico, superficial; a deixava estagnada, entorpecida. Por vezes, se esquecia de respirar, soltando longos suspiros quando se dava conta que lhe faltava ar.

“Com um pouco de sorte, talvez”, ele dissera, olhando-a com aquele par de ônix, que lhe causavam calafrios de uma ponta da espinha à outra. Aurora ainda se lembrava de como as unhas dele estava fincadas em seu pescoço, enquanto falava; “Que péssima estrela você seria se não me levasse junto com você, na sua auto-destruição.”

Abraçando a si mesma, seu corpo tremeu; de frio, de medo, de desgosto. Voltou a si, finalmente e notou a insensibilidade em seu corpo. Sangue lhe enchia a boca, deixando-lhe um gosto amargo e melancólico; seus olhos estavam cheios de lágrimas, cristalinas, que corriam por seu rosto, deixando rastros menores nas manchas de sangue em suas bochechas e queixo. Olhou para o espelho moído, destruído em um ataque de ódio descontrolado; ironia cruel era o que via, um reflexo detalhado de seu interior, daquilo que ela tinha dentro de si.

Tanto tempo isolada a fazia delirar, cada vez pior. Seus passos eram sempre bamboleantes, como se andasse sem rumo pelo mundo; era meia verdade. A lembrança de Ben queimou em sua mente, ardendo contra sua própria alma. Se toda vez que se desgraçasse, mergulhasse naquele inferno terrível que era sentir todas as coisas, e ver essas emoções morrerem lentamente, desejava não mais experimentar aquilo. Contudo, a sensação familiar de aquela tragédia seria única, irreversível, lhe comia o fígado. Ofegante, encarou o espelho, rachado e destruído, mas Aurora viu apenas o nada.

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O AQUÁRIO

Quando eu era mais nova, eu costumava escrever muito sobre o Caos e sobre como todas as coisas do universo dependiam do Caos e tão somente dele. Eu o tratava como uma energia monstruosa e onipresente, que tinha uma beleza característica, mas uma beleza bruta. Era infernal e destrutivo, engolindo os mundos de uma só vez. E na primeira vez em que vi Aurora, eu vi o Caos em pessoa; e todos os meus conceitos foram jogados no lixo, resquícios de uma alucinação antiga.

Eu a vi primeiro, andando pelo sítio arqueológico em que eu trabalhava, uma área isolada da praia da cidade pequena da Irlanda. Os ombros caídos dela me disseram muito: uma pessoa exausta, carregando o mundo nas costas. Em seu caso, eram os mundos. Entorpecida pela presença de uma Guia, meus olhos se fecharam para o que restava dela e quando ela descobriu que eu buscava o portal para Animalia, desistiu e partiu.

A segunda vez em que nos vimos, ela me procurou às portas de minha casa, em Dublin. Olhos azuis me encaravam, desesperados, porém orgulhosos; eram brilhantes, mas escuros, como encarar um céu estrelado. Quando mais próxima, vi também que suas írises tinham leves resquícios amarelos: era um céu com um pouco do sol; Aurora era mais como o crepúsculo, mais do que como a alvorada. Os cabelos louros eram escuros e ela os prendia em um coque bagunçado, que sofria para sustentar o peso da juba. Tinha olheiras fortes e estava muito pálida. Olhou-me com intensidade, medindo-me de cima a baixo, até que me pediu abrigo e orientação. Atrás dela estavam os companheiros fiéis: o forasteiro devoto e o profundo cético, parecendo tão cansados quanto ela. O homem era mais alto que os dois e a observava com olhos cheios, preparado para salvá-la de qualquer coisa. O rapaz parecia só querer ir para casa.

Dei um quarto para cada um, deixando o mais perto da biblioteca para ela, sabendo que de madrugada ela levantaria, sem sono, e vagaria pela casa em busca de alguma distração. A responsabilidade nos deixa exausto; a tristeza nos mantém acordados. No dia seguinte, conversamos.

Olhos tristes e perdidos me olhavam, sem fé e sem esperança. Ela usava um batom púrpura que desvaneceu após algumas horas. Em outras circunstâncias, ela talvez tivesse o retocado; daquela vez, não se importou. Pediu-me que a ensinasse, que a ajudasse a aprender seus poderes e destravá-los de uma só vez. “Eu vi o fim do mundo” ela me disse, inúmeras vezes, olhos distantes, expressão vazia “E é terrível.” Eu também vira o fim do mundo e nós tínhamos pouco tempo para torna-la poderosa o bastante para equilibrar os universos.

Pela manhã seguinte, nós já treinávamos na minha academia particular. Alta, magricela e mal-humorada: Aurora me encarava com feições melancólicas e era extremamente expressiva. Havia linhas de expressão em sua testa, uma vez que ela mantinha o cenho franzido quase todo o tempo, em uma careta de frustração por pensar demais. Sua beleza era etérea, única e estava vinculada a seu cenho franzido e seus olhos expressivos. Ela arrastava os pés para caminhar e toda vez que falhava nos exercícios de meditação, ela engolia um grito de raiva e limitava-se a cerrar os punhos. Todas as manhãs nós treinávamos, e todas as manhãs ela frustrava-se ao falhar. No terceiro dia, ela não fora capaz de abrir uma fresta no tecido dos mundos; irritada, ela soltou um urro e mordeu os lábios. No mesmo instante em que seus joelhos bateram no chão quando ela caiu, as mãos agarrando os cabelos, Jon e Benjamin correram para ajudá-la. O batom púrpura tinha um propósito, eu percebera: esconder as feridas que ela causava ao morder o lábio inferior, de onde jorrava sangue naquele momento. Aurora era exaustão e tristeza, mas ela também era fúria. Fúria, fúria, fúria. Crua e bruta.

Descobri que o fardo era demais e que o destino estraçalhava ela aos poucos. Havia passado entre ela e Benjamin, e havia um monte de sentimentos incertos em Jon. E eu me via nela como se olhar para aquela moça fosse um espelho de espíritos. Jovem, ela parecia velha e cada vez mais cansada; Aurora representava o que eu era agora. Quando eu tinha a mesma idade que ela, eu era arrogante e famosa no colégio e na universidade. A minha família era estável e tínhamos uma fortuna imensurável, o que me permitiu ser uma pessoa mimada por anos, torrando dinheiro com absurdos, enquanto mudava de graduação a cada semestre. Eu não tive amigos e era frustrada por isso; demorei a perceber que existia uma diferença entre ser popular e ser amigável. Aurora não tinha nada daquilo e enquanto eu levei anos para amadurecer e me tornar quem eu era, aquela menina precisava mudar da noite para o dia se quisesse cumprir com sua missão.

Benjamin atormentava-a o tempo todo, dizendo que deveria voltar para casa, que ela deveria buscar ajuda de um médico, que estava ficando louca. Era penoso ver os olhos dela brilhando ao vê-lo, apaixonada e destruída, desolada. Ele não acreditava; não era novidade, o equilíbrio demanda o cético, assim como demanda o iludido e aquele que se mantém entre eles. O fanatismo e a indiferença são armas contra o equilíbrio. Aos poucos, Aurora parecia ceder aos pedidos dele e Jon voltava para lhe dizer que sua missão ainda estava para ser concluída, que ela tinha um dom, que deveria cumprir com seu destino. Indiferença e fanatismo, tirando Aurora do equilíbrio, mesmo sendo ela o próprio caos.

No quinto dia de estadia, ela me contou sobre sua história com Benjamin e sobre como sentia-se vazia desde então. Magoada e reprimida, ela dependia do silêncio e da paz para organizar sua mente, que estava sempre um caos incontrolável. “Você é o Caos” eu lhe disse e ela deu-me um sorriso que só lhe cobria os lábios, não os olhos. “Eu sei” ela respondeu, fria. Ela o chamava de “Ben” e evitara-o durante muito tempo, simplesmente porque era assustador demais gostar de alguém. Sua insistência obrigaram-na a buscar nele o que ela não encontrava em lugar nenhum mais. Ela falava dele com uma mistura de paixão e melancolia desesperançada, olhos brilhantes, porém a expressão vazia. Benjamin desistira dela, ela dissera, depois que ela decidira se apegar a ele. “Rejeitada e trocada” ela murmurara, os olhos distantes “Eu não fui nada para ele.” Nenhuma só lágrima caiu ali, para meu espanto. Não me assustei entretanto, quando de madrugada, ouvi-a chorando. Tanta dor e tantas lágrimas por uma coisa que eu não era capaz de conceber.

Os dias que se seguiram eram assim: os treinos (que eram um fiasco) pela manhã; durante a tarde, ela escapava de Benjamin ou Jon por algumas horas, escondida na biblioteca ou em qualquer cômodo, desde que eles não a chateassem com discursos sobre loucura ou sobre destino; à noite, enquanto todos dormiam e eu trabalhava até tarde, ela enfiava o rosto no travesseiro e chorava até o raiar do sol. No décimo dia, minha agonia ao vê-la em tanto sofrimento atingiu seu ápice e decidi partilhar com ela a visão que tive antes de tomar um rumo em minha vida.

A piscina em minha casa era enorme e profunda, mas por um motivo: havia um aquário no andar debaixo da casa. A piscina era somente a parte externa visível dele, sem animais. Na parte debaixo, um salão grandioso e circular, cujas paredes eram feitas de vidro, estava um aquário gigante. A iluminação vinha da parte de dentro, azulada e tremeluzente, iluminando o chão em camadas de luz em refração. Não havia peixes, porque não era um aquário ordinário, mas uma fresta que estava aberta para um universo diferente, paralelo. Levei Aurora até lá e deixei-a assistindo maravilhada, as bolhas brilhantes moverem-se, dançando, de um lado para o outro, como estrelas salpicadas de pó cósmico. Havia estrelas e nébulas, como se o universo como o conhecemos estivesse mergulhado ali.

“É uma fresta e do outro lado, está um universo” expliquei a ela “Inatingível, uma vez que abri-lo por completo nos afogaria e atravessar a fresta é perigoso demais. ”

Os olhos dela brilharam para o aquário, como brilhavam para Benjamin. Houve um amor imediato ali que se media com o amor dela pelo cético. Ela sorriu, com os lábios e os olhos, diferente de seu hábito de fingir que estava alegre, o olhar sempre morto.

Vê-la pelas costas, em pé em frente à fresta, observando o brilho que inundava a água, era uma visão mágica que aos poucos se tornou inquietante. Aurora gastava as noites observando as nébulas iluminarem a água e a poeira cósmica respondia a seu humor, trocando de cores, afundando o salão em um mar de espectros coloridos distintos. Azul, laranja e roxo, verde e dourado, e o vulto escuro de Aurora parado ali, maravilhada, as mãos sobre o vidro, cravando as unhas, numa tentativa de atravessar para aquele universo, longe de tudo e todos.

Ela chorava ali também e seu sofrimento ainda era intenso, mas o aquário cumpria sua função: força-la a sentir. Cada vez que Aurora reprimia seus sentimentos, ela os trancava e os destruía, de modo que com o tempo ela se afundou em uma dormência indiferente que poderia lhe custar a vida. Queria confortá-la, mas não era possível. O aquário trabalhava sozinho.

Quando Jon a acompanhou em uma das noites, o lugar luziu dourado e vermelho e os dois ficaram sentados, encarando o brilho e as estrelas que nadavam ali, Aurora em prantos e Jon pasmado. As coisas pioraram quando Benjamin tentou falar com ela. O aquário brilhou enlouquecido, trocando de cores como um prisma no sol.

“Saia daqui” ela lhe dissera, a voz embargada “Eu não quero te ver.”

Antes que ele tentasse insistir, tirei-o dali e ordenei que não a aborrecesse. Ele me lançou um olhar perdido, um olhar que entendia muito bem.

Ver Aurora ajoelhada, com o aquário brilhando em mil cores de novo, era doloroso e trazia memórias horríveis. Ela abraçou os joelhos e soluçou alto, partindo meu coração com cada pedido de misericórdia que fazia.

Em um tempo passado, eu estivera no lugar de Benjamin e destruíra alguém que me era devoto demais. Impassível e apaixonado, deixei-o no altar porque eu me enchia de dúvidas e de medos e não era capaz de nutrir por ele o mesmo tipo de devoção nem mesmo qualquer sentimento que fosse recíproco. Falhei em dizê-lo antes que nos conhecêssemos melhor; permiti-o entregar-se para mim e eu o destruí, sem qualquer misericórdia. Ver Aurora em prantos me doía em um nível pessoal; ela era Liam e eu era Benjamin. Permitimo-los a amar-nos, quando não sentíamos nada; Benjamin foi mais rápido do que eu, não esperou pelo altar.

Ver Aurora ali, a silhueta contornada pelas luzes coloridas, como se beijada pela Aurora Boreal, me trazia uma dor horrível e desejei consertá-la onde falhara em consertar Liam. “Ele me amou” pensei ali, ouvindo os soluços desesperados de Aurora “E eu parti seu coração em níveis tenebrosos.”

Com o tempo, passei a me preocupar, uma vez que intenção de a apresentar ao Aquário da Harmonia, como eu o chamava, era para que aliviasse sua angústia. Todas as noites ela estava lá e todas as noites chorava, às vezes em tamanho sofrimento, que eu não podia me controlar e chorava também ou então ia embora, quando se tornava insuportável demais. Minha tentativa de salvá-la parecia desgraçá-la ainda mais.

Depois de um tempo, desisti de vê-la porque a dor que emanava dela era horrível e só de imaginá-la sentindo aquilo, me dava arrepios. E se havia um Deus ou se o Universo me ouvia, eu implorei por misericórdia para aquela moça.


Misericórdia. As anotações de Audrey terminavam com aquela palavra. Aurora estava em prantos de novo, em frente ao aquário, largada no chão. Aos poucos, enquanto lia, sentia raiva de Audrey, mas depois esqueceu. A mulher fizera de tudo para ajudá-la, não podia culpa-la por meia dúzia de anotações que sequer era ofensivas. Audrey era uma observadora e pessoas assim gostavam de observar.

Desolada, Aurora encarou o aquário reluzente. Todas as noites estivera lá e sentira a influência harmônica do universo paralelo ali exposto, mas a dor que sentia nunca cessava. Vinte dias seguidos e ela não conseguira parar de chorar em nenhum momento. Colocou as anotações de Audrey no chão e enterrou o rosto nas mãos.

Gritou, um som abafado, longo e alto. Sentiu o peito doer e o desespero cair sobre ela. Audrey dizia que o aquário deveria ter funcionado, mas ele falhara. Era bem simples: as cores respondiam de acordo com as emoções. Quando ficava azul, era porque o equilíbrio havia sido atingido. Quando Ben a atormentara, ele brilhara intenso, mudando de cores tão depressa quanto o piscar de olhos dela: as emoções dela viraram um caos brutal outra vez, um caos que ele alimentava, forçando sem querer sobre Aurora um desejo desesperado de tê-lo e de amá-lo e de destruí-lo por feri-la tão profundamente. Sem luz, o aquário diria que as emoções haviam morrido e Aurora notara como aos poucos ele parecia desvanecer, cada vez mais fraco.

Misericórdia, misericórdia. — murmurou, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Eu já não aguento mais!

Aurora respirou fundo, segurando outro soluço e encarou a fresta do universo paralelo. Apertou o peito com força, sentindo um desespero súbito, que aos poucos foi sumindo até não restar mais nada. O aquário parecia não se capaz de curá-la, de forma alguma e, se continuasse ali, ela choraria pela eternidade ou até que finalmente tirasse a própria vida. Fechou os olhos e sentiu a dor que a consumia voltar, desta vez mais forte e mais profunda. Ela enxugou o rosto com as mangas da blusa, contudo, duas lágrimas ainda ousaram cair pelos olhos fechados. Aurora gritou outra vez, esticando o pescoço, o rosto voltado para o teto. Apertou o peito com mais força, tentando arrancar nas mãos o desespero.

Esvaziou-se de tudo o que sentia, adormecendo tudo dentro de si. O aquário não funcionaria com ela; estava destruída. Não havia harmonia dentro dela, somente o caos e o caos a engoliu outra vez, de uma forma que ela sabia agora, era permanente

— Eu não sinto nada — ela gritou, encostando a cabeça no chão gelado por alguns segundos, depois retornando a posição inicial, o rosto encharcado de lágrimas de novo — Por favor… Poupe-me dessa dor! Eu não aguento mais!

O corpo parecia dormente e insensível, gelado. Aurora abriu os olhos e não viu nada. O aquário escurecera.

ARRANHA-CÉUS

O céu era da cor de cimento fresco e parecia enclausurar Aurora naquele mundo tenebroso. Ofegante, ela levou as mãos ao peito, enfiando os dedos contra a blusa de algodão. Sentia sua respiração tornar-se cada vez mais difícil e rústica.

As pernas doíam, vacilantes; não sabia por quanto tempo mais conseguiria correr. Talvez mais um quilômetro ou menos. Sabia que se parasse, desabaria em todos os sentidos possíveis.

O asfalto estivera quente nos últimos dias, dias estes em que gota nenhuma de chuva se atrevera a cair. O sol torrara o negrume do chão, tornando-o mais febril do que Aurora nos meses passados. Agora, enquanto corria descalça por ruas e avenidas movimentadas, Aurora sentia o toque bruto e gelado do chão; seus pés ardiam e estavam dando cãibras, tão escuros de sujeira quanto o céu acima de sua cabeça.

A dor em seu peito afogava as dores do resto de seu corpo. Enfiou os dedos na carne de seu pescoço pálido e manchado com marcas vermelhas de arranhões que ela não podia controlar. Atravessou dois cruzamentos pelo meio da rua, de olhos fechados. Ouviu mil buzinas soarem em uma melodia caótica, mas Aurora era o próprio caos e o barulho não a fez abrir os olhos. Nenhum carro sequer raspou nela e ela, ensandecida, não se importava.

Quantas garrafas tinha bebido? Duas? Três? Não era capaz de se lembrar. Seu sangue vomitava álcool, álcool demais para uma moça tão jovem, álcool demais para uma moça… Pensava estar bêbada o suficiente para ser incapaz de andar, mas o desgosto a mantinha sóbria. Que forças tinha a vodca contra o desgosto? Aurora não tinha respostas, era esse seu dilema.

A paisagem passava por ela conforme ela passava pela paisagem, feito uma flecha desordenada. Casas coloridas viravam borrões meio luminosos, carros escuros viravam sombras ruidosas, pessoas viravam vultos desanimados. Aurora não ia pela calçada, mas pela rua, cruzando motos e caminhões, obrigando motoristas a buzinar quando passava em frente a seus carros e ônibus sem sequer olhar. Não tinha mais respeito por leis, nem mesmo pela vida.

Suor escorria de sua testa, grudando os cabelos escuros contra um rosto pálido, magro e adoecido. O vento gelado, contudo, não permitia que Aurora sentisse calor. O pedaço de gelo que tinha em si só lhe permitia sentir frio. Olhos opacos rodopiavam furtivos em suas órbitas, alucinadamente procurando um caminho que não conseguia encontrar. Não sabia quantas ruas correra e a cidade era grande o bastante para perder-se com facilidade. Pensou em Ben, longe, distante demais para ela implorar.

A chuva desceu em uma só cortina, com uma força imensurável. Os punhos cerrados de Aurora fecharam-se com ainda mais força. Um trovão rugiu perto de onde ela estava; alto, forte, gutural, como se fosse um dragão adormecido que acordara em plena fúria. A chuva caiu com mais força.

As roupas brancas dela ganharam tons transparentes, que em um outro dia talvez, Aurora se preocupasse. Ali, ela não se importou, sua mente focada em fugir de algo que ela não conseguia ver. Olhava freneticamente para trás, mas só via faróis e gotas grossas de chuvas, misturando-se na atmosfera, criando um borrão indiscernível de luz e água e refração. Ninguém a seguia, Aurora fugia de si mesma.

A escuridão da noite era tanta que ela já não enxergava muito bem o caminho que seguia, mas prosseguiu. Não sem medo, porque Aurora era o medo, cheia dele, até o céu de sua boca, até afogar-se nele. Abriu os braços para abraçar a escuridão, contudo, falhou; era o frio tentando matar o que já estava morto. Lembrou-se de Ben dizendo-lhe que o mundo era um lugar vazio e escuro, e que deveria aprender a abraçar e incorporar a escuridão para uma vida menos miserável. Ben tinha todas as respostas e se negara a dá-las a Aurora.

“Eu não a amo” ele dissera, enchendo Aurora de uma dor que ela não conseguia discernir “e nunca vou amá-la.”

Quis chorar, mas já não conseguia. Tinha os olhos inchados de tanto fazê-lo, e as lágrimas que tinha haviam secado e amargado sua doçura mais rápido que veneno de víboras impregnado em uma ferida. A chuva pintou-lhe lágrimas falsas no rosto e Aurora fez bom uso dessa mentira, porém estava sufocada com coisas que não entendia e coisas que não conseguia se livrar.

O mundo ao seu redor desabava, quase literalmente. Árvores caíam enquanto um vento forte ia contra ela, forçando-a para trás conforme ela corria, sempre em frente. Os dedos das mãos começavam a doer pelo frio, mas Aurora não parou. Fosse o que fosse aquela tempestade, o que a atormentava era mil vezes pior.

A última rua que virou era uma descida enorme, com calçadas de cimento claro e azulejos da cor de giz. Os muros das casas eram de cores claras em tons pastéis, de rosa e azul ao laranja e verde, passando por ela em um borrão escuro. Os postes tinham luzes amarelas que destruíam as cores, mas Aurora não era capaz de discernir nada ali que não fosse o horizonte e mesmo este era um vazio com pontos luminosos, faróis de carro em um pano de fundo catastrófico. A água descia junto com ela, formando uma enxurrada enorme e violenta, que se debatia com o meio-fio e invadia a calçada. As pernas de Aurora estavam mergulhadas até as panturrilhas, água suja e gélida. A rua terminava em uma avenida na praia e Aurora cruzou-a sem misericórdia de si mesma.

Enfiou os pés na areia encharcada, clara e sem brilho, os céus sobre o oceano eram escuros e conturbados, raios e trovões explodindo para todos os lados, o som ensurdecedor fazendo a terra tremer. Aurora sentia a força do som estremecer seus ossos e naquele breve momento voltou a si. Sentiu o cheiro salgado do mar, o aroma da chuva, amargo e intenso, e sua tenção pareceu voltar para o lugar onde estava. Sentiu-se atordoada, os efeitos do álcool finalmente a atingindo; as mãos estavam adormecendo, talvez de frio ou embriaguez, era difícil de dizer. Fechou os olhos com força, ainda correndo pela praia vazia, e um trovão soou tão perto dela que Aurora pensou que a chuva era ela, na verdade.

Gritou, furiosa. Os punhos cerrados queimavam de frio e sentiu a dor que as unhas causavam ao fincarem-se na própria carne. Sangue escorreu das feridas que as unhas causavam e Aurora gritou mais alto. Ninguém parou, porque ninguém ouvia. Ela urrou outra vez, mais forte, mais desesperada e um trovão fez terra estremecer de novo. Aurora abriu os olhos e mergulhou de novo em sua histeria etérea, os olhos cintilando com a alucinação que a impedia de manter-se sã em seu próprio ambiente. Havia uma tempestade destruindo o mundo e uma tempestade devastando-a sem piedade.

Chegou em um píer, cheio de barracas de petiscos, fechadas e assediadas pelo vento furioso. Aurora atravessou-o sem pensar, escorregando no chão de madeira polida com os pés gelados e feridos, e caindo com um baque. Sentiu a boca sangrar, mas chuva lavou os lábios já rachados dela e com uma determinação atípica, ela se levantou e voltou a correr.

O fim do píer veio mais depressa do que ela pudera calcular. Olhou para o horizonte uma última vez, observando a tempestade monstruosa que assolaria a cidade, enquanto saltava para dentro do mar furioso. Outro trovão explodiu e o céu iluminou-se, desenhando nas nuvens com luz, onde a densidade era menor e podia espalhar a visão brilhante, criando padrões monstruosos no ar. Então, Aurora mergulhou em um oceano de gelo.

Nem mesmo a água fria a tirou de seu frenesi, meio são e meio insano, um pé em um mundo imaginário e outro em um oceano, tão real que a deixava mais fria do que já era por natureza. A água era tão escura quanto o céu, a maré violenta jogando-a para trás e depois lançando-a para frente, Aurora nadando em direção ao norte e em direção ao fundo. O sal queimou as feridas pelo corpo, mas a dor não a atingia como deveria, a perturbação do desespero em sua mente, vozes gritando em seu ouvido coisas terríveis. Ela ainda podia sentir os trovões e ouvi-los, o som abafado através da água, mas a força era capaz de estremecer mesmo o mar. Aurora sentia as vibrações, sentia o corpo sendo jogado para o fundo. Aos poucos os pulmões iam se esvaziando e logo ela precisaria de ar, e sabia que se recusaria a subir.

A voz de Ben soou como um assobio em seus ouvidos.

“Suicidas vão para o inferno” ele dissera aquilo um bilhão de vezes, assim como tantas outras pessoas diziam a mesma coisa e Aurora ignorava-os por puro desapreço.

“Você sequer acredita em Deus” ela resmungara.

“Você também não.”

“Quem é Deus perto do Diabo, Ben?”

Ben oferecera-lhe o mesmo sorriso mesquinho, a única coisa que fora capaz de oferecer que não fosse dor e desgosto e sofrimento. Dissera-lhe que ela era o Diabo e que ela destruía tudo o que tocava. Aurora sabia que era verdade, e se o mar que a abraçava tão sem medo ainda estava inteiro, é porque ela ainda não havia o tocado por completo.

Aurora soprou o que lhe restava de ar e sentiu o coração acelerar. A tempestade tornara o mar negro e agora ela nadava no escuro. As roupas a puxavam para baixo com mais força. Ela sentia o corpo dormente de frio, chegando ao ponto de quase não senti-lo mais. Livrou-se da jaqueta e continuou nadando, mesmo que seu corpo implorasse por oxigênio.

As pontadas vieram no mesmo ritmo dos trovões e raios que estavam o céu que ela quase já não via mais.

“Eles estão vindo, Ben!” ela lhe dissera, dia após dia, e dia após dia ele a ignorara.

Eles quem?”

“Eu não… não sei” a partir dali Aurora já não confiava em mais nada, nem mesmo em si mesma. Os sonhos a atormentavam com visões de tempestades ferozes e cidades arruinadas, mas eram sonhos e apenas isso. Mas o mundo seguia o roteiro, com um calor sem fim e de repente a chuva forte e a sensação de um apocalipse atormentando sua vida já tão atormentada.

Aurora surtara por tantos motivos que ela se afogava sem nem mesmo saber o porquê daquele desespero horrível.

“Não tem ninguém vindo, Aurora” ele dissera-lhe, oferecendo-lhe o mesmo sorriso mesquinho e zombeteiro, como se ela fosse um nada que ele ouvia por diversão. “Você deve estar ficando louca!”

Aurora desejou que Ben morresse com a tempestade, tão amarga e enfurecida, desejou que ele morresse naquilo que ela era e sempre fora. Água gelada invadiu seus pulmões, pelo nariz e pela boca, salgada, amarga, gelada como o Ártico e sua imensidão de gelo. O sal queimou a garganta machucada de tanto berrar e ela apertou o pescoço, parada em alto mar, em uma escuridão que se espalhava por todos os lados, exceto em raros momentos, quando raios iluminavam um céu mais negro do que nanquim.

A consciência dela pesou e escureceu. Aurora sentiu os olhos, ardendo, fecharem-se devagar.

Um barulho de passos fortes contra metal ecoou, duas, cinco, vinte, cinquenta vezes. O toque do mar frio sumira de repente, mas ainda sentia a temperatura baixa. Aurora abriu os olhos e viu-se correndo escada acima, descalça e os mesmos pés sujos e frios, em um prédio luxuoso. Ouvia o furacão rugir do lado de fora, enquanto passava por pequenas janelas que começavam a trincar com a pressão do vento. Os ouvidos dela assobiaram quanto algumas janelas estouraram.

Deu um soco na parede, sem parar de subir as escadas. Sentiu a dor e deu um suspiro. Talvez ainda estivesse sonhando, mas alguma coisa lhe dizia que fizera algo mais do que vagar em sua imaginação quando estivera no mar. O peso que sentia dentro de si, a dor angustiante que crescia junto com uma agonia insuportável só aumentara. A alucinação podia ter sido para atormentá-la mais ainda. Deus talvez tivesse dado a Ben seu coração e ele o apertava em suas mãos, esmagando-o sem misericórdia, sangue voando para todos os lados.

O instinto guiava seus passos, em direção ao terraço do prédio. Ela escancarou a porta com violência e seus olhos fitaram o céu, estupefata, com a tempestade escura e bruta que os desolava.

— Aurora!

A voz de Ben ecoou pela cobertura, enquanto os ventos varriam os cabelos ensopados de Aurora. Seus olhos se cruzaram com uma violência desumana, safiras opacas contra um par de ônix, tão fundos e inclementes que Aurora quase cambaleou. Não parou de correr, nem de olhá-lo, parado sobre o parapeito que circundava o terraço, os ventos balançando-o vertiginosamente.

— Ben — ela murmurou, indo em sua direção.

— Eles estão vindo — ele proferiu com a voz rouca.

Aurora não respondeu. Correu em sua direção, lançando-se contra ele, os braços em volta de seu tórax, o casaco escuro dele meio seco e meio quente, e forçou-se adiante. Seus pés deixaram o chão, Aurora apertada contra seu peito, as mãos de Ben rasgando seu rosto. Dor nenhuma era tão agridoce quanto aquela, ardendo de forma prazerosa e doentia.

Seus olhos se encontraram uma última vez, dois meteoros afogados em lagos azuis e turbulentos; ventos divinos tentavam puxá-los para cima inutilmente, enquanto a gravidade infernal os jogava para baixo.

A CAÇADORA DE SONHOS

Profundo em seu coração estavam todas as mentiras que contou a si mesma, de modo que pudesse dormir tranquila à noite. Sua vida sem significados, chegou a um ponto onde ela não conseguia mais mais ser ela, mas se posso dizer algo, ela jamais foi ela, ou — ela acha — ela sempre foi assim. Porque ela era um anjo, cujas asas uma vez se partiram quando caiu do Paraíso, diretamente para as profundezas daquele inferno enlouquecedor.

Para alguns, suas reclamações pareciam bobeira, mas seu coração se partiu em milhões de pedaços. “Você que comanda a si mesmo” ela dizia em prantos “Ensina-me tuas lições de amor próprio e desapego, de modo que eu aprenda a me desconectar das sombras que temo tanto amar.”

E por um longo tempo, desde que ela era criança e seu coração era o mais puro de todos, ela sabia com toda a certeza do mundo que era só, mesmo rodeada por uma multidão de faces sem expressão. Eles a jogaram na Escuridão, então Escuridão ela se tornou. Lentamente, num primeiro momento, deixando que a corrupção rasgasse sua carne e sua mente e sua alma tão facilmente a corrompendo. Então, o pesadelo veio e nunca mais se foi, trancafiando-a dentro de si mesma, todos os dias em todos os lugares, a todo momento. Porque ela sofreu e o Lobo sofreu com ela.

Aos quinze ela se perdeu, vendo mortes e vidas desperdiçadas nas esquinas do egoísmo, enquanto fingia ser altruísta, quando tudo o que mais queria era o mundo. A Escuridão cresceu mais e mais, cada vez mais intensa, lentamente destruindo seu coração e transformando-o em um monte de carne pela metade. Sangue em todos os lugares, vermelho e escuro e brilhante contra as paredes, em sua pele, em suas mãos, mesmo quando ela estava de joelhos em seu quarto escuro, implorando ao Lobo por misericórdia e ouvindo nulas respostas. Porque ela era pecadora e se afogara em Pó. Porque ela negara o Lobo e o Lobo a esquecera.

Cada dia era uma cruzada que a perseguia até seu âmago, como se ela fosse um monstro, queimando cada átomo de seu corpo tão devagar que sua dor se prolongava por dias, meses, anos. E as Estrelas governavam o antigo palácio dos sonhos, matando cada um dos pensamentos bons que ela ainda possuía, esvaziando seu corpo do amor e da paixão, e pior — da empatia. Garganta seca, o desespero, unhas roídas contra as paredes à noite — de dia, diamantes nos olhos, o disfarce ideal. Abraçando a si mesma, a murmurar as preces que ela sabia que jamais funcionariam, o Lobo fugira porque ela era herege, pecadora, louca. O universo se abria acima dela, iluminando os cabelos, os olhos, os lábios úmidos, fraturando a visão das almas desgarradas daquele lugar, ela sabia. Porque ela estava exausta e o Lobo lhe negava descanso.

As manhãs tão quentes lhe eram frias, seu ódio proliferando como traças contra os livros manchados de lágrimas, estantes empoeiradas gritando a negligência dela. O reflexo de seus olhos existia somente nos cacos do espelho quebrado, ferida no chão, por dentro e por fora. Seu grito era silencioso, o Lobo ignorando as preces, Destino a roubando o fôlego e os desejos, Tempo a matando devagar. Dez vezes seu crânio se chocou contra a parede, mordendo os lábios, ela sangrou; sangrou demais, os olhos inchados de tanto chorar, a décima noite sem dormir. Ela apertou o abraço a sua alma, implorando por piedade e ouvindo respostas nulas, o ódio a alimentando e ela alimentando o ódio. Porque ela era louca e o Lobo não tinha misericórdia.

Só mais tarde, quando percebeu que estava morrendo enquanto todos lhe diziam o contrário, que ela percebeu que o Pó era o Lobo e ela era o Pó. Suas marcas naquele mundo nada significavam se não a existência medíocre de uma menina morta que já estava morta logo após nascer. Sempre fora solitária e despedaçada, pois o Lobo lhe rompera a alma e a forçara a entrar naquele pesadelo sem fim. Ela sempre fora o Lobo e nunca a ovelha; áspera e seca, nunca suave e amável. O Pó colocara de volta as peças que lhe pertenciam e as colara uma vez mais. Porque nós somos Pó e ao Pó retornaremos.