A CAÇADORA DE SONHOS

Profundo em seu coração estavam todas as mentiras que contou a si mesma, de modo que pudesse dormir tranquila à noite. Sua vida sem significados, chegou a um ponto onde ela não conseguia mais mais ser ela, mas se posso dizer algo, ela jamais foi ela, ou — ela acha — ela sempre foi assim. Porque ela era um anjo, cujas asas uma vez se partiram quando caiu do Paraíso, diretamente para as profundezas daquele inferno enlouquecedor.

Para alguns, suas reclamações pareciam bobeira, mas seu coração se partiu em milhões de pedaços. “Você que comanda a si mesmo” ela dizia em prantos “Ensina-me tuas lições de amor próprio e desapego, de modo que eu aprenda a me desconectar das sombras que temo tanto amar.”

E por um longo tempo, desde que ela era criança e seu coração era o mais puro de todos, ela sabia com toda a certeza do mundo que era só, mesmo rodeada por uma multidão de faces sem expressão. Eles a jogaram na Escuridão, então Escuridão ela se tornou. Lentamente, num primeiro momento, deixando que a corrupção rasgasse sua carne e sua mente e sua alma tão facilmente a corrompendo. Então, o pesadelo veio e nunca mais se foi, trancafiando-a dentro de si mesma, todos os dias em todos os lugares, a todo momento. Porque ela sofreu e o Lobo sofreu com ela.

Aos quinze ela se perdeu, vendo mortes e vidas desperdiçadas nas esquinas do egoísmo, enquanto fingia ser altruísta, quando tudo o que mais queria era o mundo. A Escuridão cresceu mais e mais, cada vez mais intensa, lentamente destruindo seu coração e transformando-o em um monte de carne pela metade. Sangue em todos os lugares, vermelho e escuro e brilhante contra as paredes, em sua pele, em suas mãos, mesmo quando ela estava de joelhos em seu quarto escuro, implorando ao Lobo por misericórdia e ouvindo nulas respostas. Porque ela era pecadora e se afogara em Pó. Porque ela negara o Lobo e o Lobo a esquecera.

Cada dia era uma cruzada que a perseguia até seu âmago, como se ela fosse um monstro, queimando cada átomo de seu corpo tão devagar que sua dor se prolongava por dias, meses, anos. E as Estrelas governavam o antigo palácio dos sonhos, matando cada um dos pensamentos bons que ela ainda possuía, esvaziando seu corpo do amor e da paixão, e pior — da empatia. Garganta seca, o desespero, unhas roídas contra as paredes à noite — de dia, diamantes nos olhos, o disfarce ideal. Abraçando a si mesma, a murmurar as preces que ela sabia que jamais funcionariam, o Lobo fugira porque ela era herege, pecadora, louca. O universo se abria acima dela, iluminando os cabelos, os olhos, os lábios úmidos, fraturando a visão das almas desgarradas daquele lugar, ela sabia. Porque ela estava exausta e o Lobo lhe negava descanso.

As manhãs tão quentes lhe eram frias, seu ódio proliferando como traças contra os livros manchados de lágrimas, estantes empoeiradas gritando a negligência dela. O reflexo de seus olhos existia somente nos cacos do espelho quebrado, ferida no chão, por dentro e por fora. Seu grito era silencioso, o Lobo ignorando as preces, Destino a roubando o fôlego e os desejos, Tempo a matando devagar. Dez vezes seu crânio se chocou contra a parede, mordendo os lábios, ela sangrou; sangrou demais, os olhos inchados de tanto chorar, a décima noite sem dormir. Ela apertou o abraço a sua alma, implorando por piedade e ouvindo respostas nulas, o ódio a alimentando e ela alimentando o ódio. Porque ela era louca e o Lobo não tinha misericórdia.

Só mais tarde, quando percebeu que estava morrendo enquanto todos lhe diziam o contrário, que ela percebeu que o Pó era o Lobo e ela era o Pó. Suas marcas naquele mundo nada significavam se não a existência medíocre de uma menina morta que já estava morta logo após nascer. Sempre fora solitária e despedaçada, pois o Lobo lhe rompera a alma e a forçara a entrar naquele pesadelo sem fim. Ela sempre fora o Lobo e nunca a ovelha; áspera e seca, nunca suave e amável. O Pó colocara de volta as peças que lhe pertenciam e as colara uma vez mais. Porque nós somos Pó e ao Pó retornaremos.