ESTRELAS EM PEDAÇOS

THEA — PARTE UM

Thea, parte um

Thea, quer dizer deusa ou divina. É uma adaptação de Theia, a Titã da visão e da luz brilhante do claro céu azul. Thea. Meu nome é Thea.

Uma luz branca e intensa brilhou sobre mim, quando abri os olhos achei que estava cega. O toque da água ainda era intenso, mas não havia água onde eu estava. Eu não sabia onde estava.

Meu Deus, pensei repetidas vezes. As memórias vieram, brutais, de uma só vez. Rostos familiares surgiram: meus pais, minha irmã, meus amigos de escola, o dono da loja de comunicadores, os cientistas… As memórias vinham. Todas elas.

Tentei mexer os braços, mas não consegui. Não conseguia me mover, nada; os pulmões pareciam congelados também. Meus olhos viravam, de um lado ao outro, em pânico; tentei respirar, mas não consegui. Eu me sentia como uma estátua, jogada dentro do mar, água gelada tocando minha pele. Mas não havia água. Meu Deus, não havia água.

Sons ecoavam em meus ouvidos, abafados, como se eu estivesse mergulhada em algo, mas não muito; o suficiente para ouvi-los. Os agudos pios de computadores, suaves; a voz metálica da inteligência artificial respondendo a alguém. Onde eu estava? O que era aquilo? As memórias convergiam e se misturavam e eu não conseguia dizer o que era real do que era sonho. Eu estava sobre uma ponte, o mar agitado abaixo de mim… Mas não era real. Não fazia sentido.

O ar me faltava e minha consciência se esvaía como seda escorrendo por madeira polida.

— O que está acontecendo? — a voz feminina e intensa soou, um eco como se fosse um fantasma distante.

— É Thea, doutora! — outra voz respondeu, também feminina, mas jovem e mais desesperada e inexperiente. — Os sinais vitais… estão sumindo…

Morrendo, eu estava morrendo. Nenhuma parte de meu corpo me respondia, somente meus olhos e o pânico se apoderava de mim com rapidez. O ar não entrava em meus pulmões, sentia a necessidade de ofegar mas não conseguia. A água tocava a minha pele, uma água inexistente.

A luz sumiu, devagar. Tudo escureceu. Não senti mais nada, bem aos poucos. Havia só um eco distante.

— O coração dela parou! — era a voz inexperiente — O desfibrilador! Agora!

Parou, parou, parou… O eco durou por longos instantes, cada vez mais suave e mais distante. Não sentia nem meus pulmões mais, nem mesmo dor. Somente a necessidade de respirar, enquanto as memórias se organizavam na minha mente.

Então, o choque veio. Brutal.

— Vamos, Thea! — a primeira voz ecoou, um pouco mais próxima que antes.

Outro choque. Também brutal. Não doía, mas parecia sacudir as ondas do espaço-tempo onde eu estava. Uma escuridão intensa.

Outra vibração e veio a luz, então. Clara, como antes. E a dor, a dor veio ao mesmo tempo que o ar passou por minha boca e nariz e desceu até os pulmões. O toque da água sumiu, e senti-me dona de mim outra vez. Ofeguei, respirando desesperada. Sem conseguir levantar de onde quer que estivesse deitada, deixei o ambiente ao meu redor se tornar nítido e agarrei o braço de alguém. Tentei apertar com força, mas não havia força em mim. Outra mão pôs-se sobre a minha.

— Thea, acalma-se — era a dona da primeira voz; olhei para ela. Sua figura demorou alguns segundos para sair do borrão de luz e trevas que eram meus olhos e cabelos platinados surgiram, amarrados em um rabo-de-cavalo firme e profissional; ela usava um jaleco branco e a memória que me dizia seu nome ficou clara — Está tudo bem! Respire! Você está bem!

Tentei falar, mas a voz não saiu. Meu corpo estava dolorido e difícil de mover, embora móvel dessa vez. O choque da situação aos poucos dissipava-se, embora nada naquele mundo seria capaz de apagar as memórias da outra vida, o horizonte visto de cima da ponte ou o mar cinza sob ela, agitado como um deus em fúria.

Como esquecer o dia em que eu me jogara de uma ponte, em direção à morte?

* * *

Nova era uma cidade completamente adornada em vidros blindados, que reluziam sob a luz solar, e deixavam tudo muito bem iluminado. Em conjunto com as lâmpadas brancas que iluminavam os ambientes internos, toda a cidade parecia feita de luz e reflexos.

Encostei minha cabeça dolorida em uma das janelas largas do prédio onde eu acordara. Dúzias de pessoas passavam por mim, algumas usando jalecos brancos, com a insígnia dourada de um sol reluzente, identificando-os como funcionários do Centro de Pesquisas de Nova.  O CPN era responsável por avanço tecnológicos e seus estudos, e trabalhava principalmente com biotecnologia. Tinha diversas alas de tratamentos hospitalares, desde doenças mentais até casos irrecuperáveis físicos. A missão principal do Centro de Pesquisas era dar ao impossível, possibilidades.

Eu fazia parte de uma equipe treinada, desde a infância, para auxiliar em tratamentos para distúrbios mentais. As memórias eram mais claras e faziam sentido naquele momento. Meu nome era Thea e eu era um prodígio do CPN.

Meu reflexo no vidro da janela mostrava meu rosto exausto da experiência que eu acabara de acordar. A memória do meu suicídio no mundo Nexus era fresca e violenta e completamente devastadora. E inédita no meu currículo impecável. Um voluntário da ala de saúde mental era sempre emocionalmente estável e saudável, capaz de aguentar as manipulações que a mente lida em circunstâncias extremas. Um voluntário que se mata no Nexus era como se mostrar incapaz de ajudar pacientes com sérios problemas psicológicos.

— Thea? — a voz da doutora que estivera comigo quando acordei soou perto de mim — Você não parece muito bem.

Olhei para ela, sem saber direito o que dizer. Não havia como, em nenhuma circunstância, eu estar bem depois daquela situação.

— É claro que não estou bem, doutora — murmurei, esfregando o rosto nas mãos — Eu não entendo o que aconteceu.

A mulher sentou-se ao meu lado. Seu nome era Meredith Anker e ela era a chefe dos médicos que comandavam o projeto do qual eu fazia parte. Apesar da voz firme e da expressão séria, era jovem e não devia ter mais que trinta anos. Tinha olhos gentis apesar da severidade em seu rosto e colocou a mão sobre meu ombro com delicadeza.

— O Nexus é uma coisa complexa, Thea — ela comentou com suavidade — Honestamente, eu já vi muita gente se matar durante o Nexus, não é incomum. Mas o que me preocupa é o fato de que você quase morreu de verdade. A simulação não deveria afetar você como afetou.

— Eu sou um prodígio, Dra. Anker — eu suspirei, olhando desesperançosa para ela — Saudável e emocionalmente estável. Todos os meus testes foram gabaritados, todos os níveis de tolerância alcançaram pontuações máximas. Ninguém mais do que eu deveria ser capaz de sobreviver ao que o Nexus reflete. E eu falhei.

— O Projeto Despertar é extremamente experimental, com a Síndrome do Nocaute fazendo vítimas semanais, nós arriscamos muito em busca de uma cura ou um tratamento eficaz — Dra. Anker respondeu — Nocaute está diretamente vinculado à parte do cérebro que permite à conexão ao Nexus e de alguma forma, a doença tem afetado diretamente a simulação. Você gerou dopamina em larga escala, assim como os outros dois voluntários, e a doença fez o Nexus revidar obrigando vocês a lidarem com traumas psicológicos violentos.

Esfreguei os olhos, ainda tentando assimilar o que acontecera. O Nexus era um mundo simulado, parecido com o meu mundo de certa forma, onde as pessoas se conectavam e entravam em uma estase que os permitia viver uma vida diferente naquele universo simulado. As memórias do indivíduo de sua vida real desapareciam, permitindo uma imersão total naquele mundo. A simulação era constante e desde sua criação, acompanhava uma linha de tempo contínua que atualmente se encontrava no século vinte e um, quase quatro séculos atrasada em relação ao meu mundo. A maneira como minha sociedade usava o Nexus era variada; alguns tratavam-no como um método de entretenimento, outros estudavam o Nexus em busca de conhecimento ou poder ou esclarecimento sobre a vida e o universo.

Mas a CPN usava a simulação para tratar ou curar diversos tipos de doenças, que muitas vezes eram vistas como incuráveis.

— Descobriram algo, pelo menos? — perguntei, quase irritada de tão frustrada e dolorida.

— A relação entre o Nexus do servidor e a Síndrome de Nocaute é muito intensa e intrínseca — a mulher explicou — Como você estava conectada através da paciente e não diretamente à simulação, o computador parece ter entendido que seus níveis de dopamina e oxitocina estavam altíssimos, e o Nexus revidou para reduzir essa anomalia.

— Mas isso não faz sentido, não é? — resmunguei, confusa — Eu estava claramente deprimida no Nexus. Por que meus níveis hormonais estariam altos quando eu tinha depressão?

— Eu realmente não sei, Thea — a voz da doutora estava cheia de dúvidas e perguntas internas, eu sentia; devia ser tão difícil para ela não saber sobre aquilo quanto era para mim — Assim que a estabilizamos, pedi para que rodassem todos os tipos de testes físicos possíveis em você. Nada foi indicado, aparentemente você está saudável. Sua parada cardíaca é, de certo modo, inexplicável.

Mergulhei em um silência desconfortável por alguns segundos, pensando. Esfreguei o rosto nas mãos, observando a doutora se levantar e lançar-me um olhar preocupado.

— Thea, quero que entenda que as circunstâncias eram extremas, o Nexus revidou com toda a força possível contra você. Os outros dois voluntários de longe tiveram seu impacto na paciente — Meredith proferiu, gentilmente; seu rosto severo não combinava com seus modos — A doença usou o Nexus para destruir a variável que estava como anomalia no sistema.

— Você fala como se o Nexus fosse algo vivo —retruquei.

— De certa forma, é mesmo — ela cruzou os braços, inquieta — O Nexus é uma inteligência artificial criada por humanos e como toda criação humana, ele incorpora partes da personalidade de seus criadores. Mas, diferente de um computador tradicional, o Nexus é ativado através de mentes humanas. Com tantas personalidades reunidas, o Nexus se adapta e filtra; nós achamos que ele está se tornando cada vez mais independente.

— Que coisa mais assustadora — suspirei, ponderando a hipótese daquela inteligência se tornar plenamente independente e os resultados na minha mente eram… terríveis, no mínimo.

— Você precisa parar de se culpar ou de procurar uma resposta para o que aconteceu, Thea — eu já esperava que ela disse aquilo, sua voz séria outra vez — Vá se distrair, descanse. Recupere suas forças. Como você mesma disse, é uma prodígio, seus talentos são insubstituíveis.

A mulher deu-me as costas e começou a andar pelo corredor. Incomodada ainda, chamei-a. Ela virou-se para mim, um olhar de piedade em seu rosto, como se ela fosse capaz de entender o que eu sentia naquele momento. Ela não era, mas sua tentativa de empatia era admirável.

— Quando posso voltar, doutora? — perguntei, ansiosa. A minha vida se resumia em visitar o Nexus, o que levava a um problema constante na minha sociedade: o vício.

Nem sempre o Nexus era cruel e quando não era usado para tratamentos, muitas pessoas visitavam a simulação em sua versão mais pura para viver vidas melhores ou mais felizes. E elas constantemente voltavam para lá, vivendos dúzias de vidas felizes, melhores, mas que não eram suas vidas.

A doutora me deu um sorriso triste, seguido de uma resposta que, no fundo, eu já sabia.

— Seria melhor que você se afastasse um pouco do Nexus, Thea. Só por um mês ou mais. Não faço ideia do que aconteceu com você, preciso entender isso, para depois permitir que você retorne.

— Eu entendo.

Quando ela me deixou no mesmo lugar que antes, olhando por uma janela de cristal, eu percebi que eu não entendia mais nada.

LIRA — PARTE DOIS

Lira, parte dois

As vidas que o Nexus simula são normais. Não há nada de extraordinário lá, é um mundo mais antigo do que o meu atual, mas que simula muitas coisas que eu conheço e algumas que nunca ouvi falar. A mesma pessoa que está lá por entretenimento divide um mundo com alguém como eu, por exemplo, que faço parte de programas de medicina. É exatamente como viver sua vida, mas é um jogo; mesmo na área médica, é um jogo e neste caso, é um jogo valendo vidas.

Para cada um mês na minha realidade, o Nexus equivale a vinte anos e toda vez que você inicia uma nova vida lá, você não se lembra de nada sobre a realidade a que pertence. Tudo tem que ser reaprendido: comer, beber, andar, falar. As características físicas, psicológicas, os talentos e defeitos, nada é como você é; é uma vida diferente, uma pessoa diferente. Contudo, quando você morre no Nexus e desperta na realidade outra vez, as lembranças daquela vida voltam e é uma experiência única, mesmo que repetida milhares de vezes.

Eu sentei em minha cama, ainda molhada da ducha recém tomada. Apesar da brisa gelada, o frio não me incomodou; nada seria como frio que eu sentira quando despertei. As lembranças ainda eram vivas e intensas e os laços deixados para trás ainda eram mornos e dolorosos; por mais irreais que as experiências lá sejam, no fundo, o fato de não saber de tal coisa torna esses laços intensos e importantes.

— Lira, meu nome era Lira — murmurei, encarando minha figura no espelho. As memórias se encaixavam devagar agora, mas faziam mais sentido que antes.

Lira tivera uma vida difícil; depressiva, complexa e constantemente dissociativa, eu estava sempre a alguns passos do suicídio. Mas de alguma forma estranha, eu encontrava maneiras de ter esperança, embora isso não durou o suficiente. Ela não tinha muito a ver comigo: era um pouco mais baixa, tinha cabelos lisos e escuros, olhos cinzentos. Era magricela, em partes porque se alimentava mal, e não tinha nenhuma graciosidade. Suas mãos eram desajeitadas, e ela frequentemente falhava em tudo o que fazia.

O Nexus reage, sempre; para cada tentativa de Lira, a Síndrome do Nocaute triplicava a intensidade do Nexus e destruía sua força de vontade. Eu me erguia, é claro, contudo, fracasso atrás de fracasso derrubariam qualquer indivíduo. No meu caso, eu mesma me derrubei.

Como eu disse, eu era um prodígio, logo a minha mente sempre foi saudável e estável e para mim, pessoas depressivas eram um mistério que eu enxergava com medo. Quando eu passei a auxiliar pacientes com problemas psicológicos, eu passei a enxergar o conflito interno que essas pessoas sofriam e aquilo me motivou a ajudá-las como eu podia. O alívio delas após o tratamento, era algo que me enchia com uma sensação de conquista insubstituível.

Mas mesmo sendo um prodígio, daquela vez o Nexus me quebrou. Fora brutal, consumindo cada pedaço de mim de dentro para fora. Normalmente, quando o tratamento de um paciente gerava os resultados esperados, os médicos instigavam o Nexus a matar os voluntários, trazendo-os de volta à nossa realidade. Boa parte dessas mortes eram acidentais dentro do Nexus, como batidas de carro, às vezes eram assassinatos. O suicídio, contudo, era uma falha no voluntário, que se mostrava incapaz de resolver o problema. Um prodígio não deveria falhar assim, mas eu, de certa forma, falhei.

Mil coisas se passavam na minha cabeça enquanto eu me vestia, ponderando cada aspecto da vida de Lira e o que poderia ter me induzido ao suicídio. A doutora poderia ter obrigado o Nexus a me forçar à morte, mas ela parecia perturbada demais para ter feito tal coisa. A minha quase morte de verdade era o grande ás da questão; o Nexus é praticamente seguro, com exceção de problemas internos que acontecem uma vez a cada século e mesmo assim, as medidas de segurança salvam todos os visitantes de lá.

— Algo me escapa — murmurei para meu reflexo no espelho, o cabelo molhado pingando sobre minha blusa, aquela sensação incômoda de tecido úmido contra a pele.

E algo realmente me escapava, e não importava quantas vezes  eu revivesse a sensação de ter me jogado de uma ponte, eu não conseguia encontrar uma resposta adequada.

* * *

O mar onde Lira morreu era cinzento, escuro, e violento. Frio como os polos de seu mundo, meu mundo. Ela não tivera ninguém com quem se importar, nenhuma família, ou amigos, ou alguém. Eu me achava solitária na minha realidade futurista, de vidros cristalinos e luzes de neon, mas Lira… Ela não era solitária, mas estava imersa numa solidão que a impedia de encontrar a si mesma. Minhas conversas mentais comigo mesma eram impossíveis para ela.

Eu precisava andar para espairar a mente, principalmente agora que estava afastada da CPN, sem poder fazer o que eu sempre fazia. Havia lacunas na minha mente sobre a minha vida como Lira que não fazia sentido; alguns detalhes faltavam.

As ruas extremamente limpas de Nova eram um contraste ofensivo contra o mundo que eu deixara no Nexus, um mundo antigo e cheio de violência e brutalidade. Telões digitais exibiam hologramas de propagandas e notícias, que eram sempre a mesma coisa; minha sociedade havia atingido o pacifismo e a notícia mais gritante era quando alguém se divorciava ou vendia seu imóvel. Não era perfeita, mas estava perto disso.

Cheguei diante de um prédio feito de placas solares espelhadas, altíssimo, tanto que olhar de baixo para cima me causava vertigem. Ali era um dos principais pontos do Nexus para entretenimento, e uma das bases do servidor da inteligência artificial. A empresa por trás daquele prédio se chamava Flamel e eles se dedicavam a fornecer acesso ao Nexus à todo mundo que desejava se aventurar na simulação com segurança. Eram extremamente restritos com a quantidades de vezes semestrais que um indivíduo poderia acessar o Nexus, uma vez que o vício era algo terrível, mas a concorrência da Flamel nem sempre visava evitar que problemas assim acontecesse. Como eu disse, minha sociedade estava muito perto da utopia, mas ainda havia defeitos.

Alguma coisa na decoração metálica, e as luzes roxas e douradas, me fizeram mergulhar num estupor de lembranças a respeito de Lira. Sua vida infeliz não tinha um propósito, não mais do que esperar que um dia as coisas ficassem mais fáceis mas nunca ficavam. O Nexus não permitia isso, não quando o Nocaute o influenciava a ser brutal na hora de aniquilar qualquer um que estivesse ali, independente se fosse um explorador ou um voluntário da medicina.

O vazio que Lira sentia, eu sentia agora também. Diferente dela, eu tinha um propósito, tinha pessoas em minha vida apesar dos pesares e eu tinha um foco; e agora, CPN me deixava afastada da única coisa que eu fazia bem na vida. Eu me sentia exatamente como Lira.

GAEA — PARTE TRÊS

Gaea, parte três

— Você parece abatida — a voz de Gaea ecoou em meus ouvidos, mas parecia distante. Precisei balançar minha cabeça para recobrar meus sentidos, meu rosto parecia dormente.

— Só estou cansada — falei, o que era em partes, verdade. Mesmo assim, Gaea não pareceu acreditar em mim e lançou-me um olhar conflitante — Toda essa situação está muito além do que eu estava acostumada.

Como fundadora da Flamel, Gaea sempre tivera em mente, a recuperação de pessoas que eram viciadas pelo Nexus. Ela própria havia passado pelo mesmo e com muito esforço, foi capaz de deixar de lado o vício e usou sua fortuna para ajudar pessoas que passavam pelo mesmo problema. Falar sobre nossas vidas no Nexus é algo considerado impróprio, para não dizer tabu, uma vez que aquela vida é algo irreal e descartável, de certa forma. Mesmo que duas pessoas se apaixonassem no Nexus, elas jamais voltariam a se ver na realidade porque as chances de elas se gostarem outra vez era, de certa forma, impossível e isso ia para além do âmbito romântico. Gaea, contudo, quebrou seu sigilo e contou, diante de toda a impreensa, sobre uma de suas experiências.

Seu vício no Nexus fora destruído, parcialmente, por sua última experiência na simulação. Ela explicou que, ao usar o Nexus para ter uma vida quase perfeita, ela começou a perceber que algo estava errado e que, em alguns casos, o indivíduo seria capaz de perceber que a vida que viviam era uma simulação. Então, ao notar isso, ela entrou em choque e se matou, acordando de volta na realidade.

— Talvez Meredith esteja certa, você deveria descansar e se afastar um pouco disso, sabe muito bem o que acontece com os viciados — Gaea falou, suavemente.

— Não sou uma viciada, Gaea! — murmurei, ofendida.

Ainda não, mas se continuar nesse ritmo vai ficar mais difícil abrir mão do Nexus e daí para frente é uma ladeira quase sem fim, Thea — a mulher respondeu — Você entende os riscos, sabe que boa parte das pessoas que se envolvem com o Nexus acabam com transtornos dissociativos, depressão, Borderline, ansiedade, a lista é infinita… É por isso que impomos limites.

— Eu sou uma… — comecei, mas Gaea ergueu a mão em um movimento gracioso e fugaz, me interrompendo.

— … uma prodígio, eu sei.  Mas você usa isso como justificativa para um comportamento de alguém que quase não consegue viver sem o Nexus — ela lançou-me um olhar duro que percorreu meu corpo, quase me julgando a respeito de algo que eu já sabia ser verdade. — Está ficando mal, Thea. Não importa quanto tirou naqueles testes, na prática é diferente. Está lidando com problemas pesados de pessoas reais, eventualmente isso atinge a todos nós.

— Eu só quero entender porquê eu quase morri de verdade, Gaea, qual a razão de eu ter me matado. Só isso.

Gaea suspirou, balançando a cabeça em um gesto claro de desistência.

— Thea, você sabe o que eu passei — disse — Não há coisa pior no mundo do que descobrir que você vive uma simulação, que nada daquilo é real. É pior ainda quando você não sabe que existe algo além da morte, um lugar ao voltar. Quando me matei no Nexus, eu só queria que a sensação de vazio sumisse; eu não lembrava de nada sobre a minha realidade. Eu só sabia que aquilo era irreal e algo estava errado.

Algo no que ela disse fez-me lançar a ela um olhar surpreso, quase indignado com a obviedade das coisas. Foi como se algo clicasse em minha mente, um som suave de informação sendo liberada. As memórias de Lira entraram nas lacunas, em partes.

— Gaea, eu… Você se lembra como se sentiu quando despertou aqui? Suas lembranças, as sensações daquela vida? — perguntei, quase trêmula.

— Pouca coisa, já faz anos afinal… Eu me lembro do choque, e eu me lembro pouquíssimo sobre a vida antes… Só me lembro que me matei por causa da simulação, da descoberta… — a voz dela era hesitante, como se ela buscasse pela informação mas não conseguisse encontrar, como se houvesse lacunas — Algumas coisas sobre antes da morte são claras, outras nem tanto.

— Gaea! É isso! — exclamei, levantando-me da cadeira, o corpo inteiro trêmulo. Minha respiração estava acelerada, assim como meu coração; uma sensação gelada desceu pela minha espinha, eriçando-me os pelos do corpo, um choque e surpresa se espalhando por mim.

— Eu não…

— Você não se lembra de nada, exatamente como eu… Faz todo o sentido, Gaea — eu mal conseguia ouvi-la, de tão exasperada que estava com aquela informação.

— Eu não entendo, Thea — Gaea exclamou, o mais alto que pôde sem gritar — Do que é que você está falando?

Segurei-a pelos ombros, tentando não tremer, mas era difícil. Minhas mãos geladas pareciam suar.

— Gaea, você não se matou porque descobriu sobre o Nexus — eu expliquei, a voz se atropelando para formar as palavras, a minha memória se tornando clara como água — O Nexus matou você.

* * *

— Dra. Anker! Dra. Anker! — eu exclamei pelos corredores da CPN, passando afobada pelo mesmo local onde eu estivera sentada quase vinte e quatro horas antes.

Empurrei as pessoas, quase sem consciência do que fazia, enquanto eu formulava a minha teoria mentalmente. E mesma com quase toda a minha memória restaurada, ainda faltava algo, alguma coisa que era essencial para eu entender o que diabos acontecera.

— Thea? — a mulher levantou-se de supetão assim que eu entrei na sala dela, escandalosa — O que houve? Você está bem?

— Eu… eu… eu não sei — ofeguei, apoiando uma das mãos na parede — Visitei Gaea, sabe? E ela me contou… sobre a experiência dela no Nexus.

A doutora balançou a cabeça em reprovação.

— Eu pedi para você descansar e você foi visitar a criatura mais polêmica quando o assunto é Nexus? Thea! — Meredith falou, sua voz alarmada — Nós quase perdemos você hoje. Esqueça isso por um momento, a última coisa que você precisa é do Nexus agora!

— Ouça-me, Meredith! — exclamei, tão exasperada que meu corpo parecia prestes a entrar em colapso. Cerrei os punhos para evitar a tremedeira, e as lembranças das crises de ansiedade de Lira vieram à tona e eu percebi que eu estava bem perto de ter uma também — Gaea explicou que, durante sua estadia no Nexus, ela percebeu que aquela vida era uma simulação. Algumas pessoas lá sempre desconfiaram, mas ela realmente descobriu e o Nexus, para consertar a falha, fez com que ela se matasse.

— Thea, não faz sentido. Mesmo que ela tivesse descoberto, dizer que o Nexus… matou ela, não faz sentido algum.

— Imagine que ela espalha a notícia de que aquele lugar é uma simulação, de que aquelas vidas são virtuais? Mesmo que eles demorassem para aceitar, ela seria capaz de provar, ela encontrou algo… Meredith, eu…

A doutora cruzou os braços, depois de esfregar os olhos com um das mãos.

— Eu entendo que esteja frustrada, acredite em mim, eu também estou — sua voz vinha com uma delicadeza que aos poucos me deixava irritada, palavra por palavra — Mas o que você está fazendo é falta de bom senso. Sei que é difícil aceitar isso, mas eu lhe disse, o Nexus é complexo e com a influência do Nocaute, afetou até mesmo você.

— Não me importa o que me afetou, doutora — retruquei, esfregando as têmporas, tentando lembrar daquele ínfimo detalhe que faltava, mas parecia perdido na minha cabeça — Eu quero lembrar, preciso lembrar do que aconteceu!

— Thea, você precisa se acalmar! — a doutora falou, com urgência, mas eu mal a ouvia, as mãos envolvendo meu próprio rosto, minha cabeça latejando somente com o esforço mental de repassar tudo o que eu lembrava da vida como Lira. Eu andava de um lado para o outr

—Um detalhe, uma única memória… É tudo o que falta! — eu balbuciei, em estupor.

— THEA!

Meredith gritou comigo, sua expressão severa atenuando-se com um olhar de preocupação. Eu parei de me mover e olhei-a, estupefata.

— Você precisa se acalmar ou ver ter que anestesiá-la, você não está bem! — a médica redarguiu — Esqueça isso! Vá para casa, descanse sua cabeça e ache um hobby, porque você vai precisar se afastar da CPN.

— Eu não…

— Sinto muito, Thea, mas no estado em que você está, você corre o risco de ser tachada de viciada e honestamente, você está muito perto disso — Meredith murmurou, franzindo o cenho numa expressão de aflição; eu não sabia como reagir — Thea, se continuar nesse ritmo, vai acabar sendo diagnosticada como Transtorno de Personalidade Limítrofe e nunca mais vai poder ajudar-nos como voluntária. Vá, Thea! Descanse, pense bem no que está acontecendo com você.

Eu fiquei imóvel, chocada, por vários segundos. Então, voltei a mim e, magoada, deixei a sala dela. Eu já imaginava que aquele dia chegaria, o dia em que eu ficaria tão imersa no Nexus que eu acabaria precisando da ajuda dele. A pior parte da situação era a negação e ela não saía de mim.

Negar era sempre mais fácil.

Em vez de ir para casa, eu subi até o topo do prédio da CPN. Ali, era comum encontrar fumantes, mas a noite já caía sobre a cidade e o céu era pontilhado de estrelas prateadas e douradas, brilhando distantes como centenas de milhares de vagalumes minúsculos; desse modo, só estava eu ali.

Observar a cidade dali de cima era irracional; prédios altos ficavam pequenos, e milhares de luzes neon luziam em cores distintas, do roxo ao amarelo ao azul ao branco ao dourado e assim ia, iluminando Nova e suas janelas de cristais, translúcidas. Um vento frio soprou meus cabelos e, ainda em choque pelo que Meredith dissera, subi no parapeito do prédio.

A vertigem veio, mas passou rápido demais. Abri os braços, deixando o vento desenhar minha silhueta. Lágrimas brotaram e eu senti, de novo, como se fosse Lira e seu vazio existencial. Eu passara o dia todo tentando entender como ela se sentia, quando no final das contas eu estava exatamente como ela: sem propósito ou foco ou noção das coisas. Lira acabara sendo um reflexo daquilo que eu realmente era e nada era tão assustador como aquilo.

De pé, ali, sentindo os ventos balançar meu corpo vertiginosamente, eu me senti de novo como Lira sobre a ponte, o mar rugindo sobre mim. O cheiro de sal e chuva entraram por minhas narinas, mas nada me despertou daquele estupor que era quando se desiste de tudo. Mas por quê?

As memórias eram enxurradas agora, como pequenos diamantes fluindo em água suja; eu lembrava. Meu deus, eu lembrei.

Meu Deus.

NEXUS — PARTE QUATRO

Nexus, parte quatro

— Thea! — a voz de Meredith ecoou atrás de mim, mas não me dei ao trabalho de virar-me; lágrimas desciam pelo meu rosto e o vento as tornava geladas — O que está fazendo aí?

— Eu me lembro, Meredith — eu murmurei, fungando — Eu me lembro de tudo!

— Thea, desça daí — ela falou, com leveza, em um tom baixo; aquilo me fez rir de escárnio, o choro irrompendo sem piedade.

Nunca desejei tanto que minha curiosidade e teimosia fossem inexistentes, porque no momento em que a recordação emergiu em minha mente, desejei nunca sequer ter sonhado com aquela hipótese. Era assombroso, terrível; Gaea estivera certa.

— Por favor, desça daí e vamos conversar.

— Eu percebi como Lira, que eu vivia em uma simulação — eu falei, os olhos fechados, lágrimas escorrendo entre os cílios — Que nada daquilo era real. O desespero foi terrível, imagine! Sua vida inteira foi uma mentira, um jogo de dados criado por uma inteligência artificial desenvolvida por humanos evoluídos? Não era normal.

Meredith ficou em silêncio por alguns segundos antes de seguir falando comigo, talvez com medo de dizer algo que me fizesse saltar. Nada do que ela dissesse faria isso, é claro, não quando eu já sabia tanto.

— Thea, eu…

— Você não faz ideia, Meredith, de como a sensação é horrível — minha voz saiu rouca e trêmula, como se me faltasse força — Não há mais nada para acreditar, porque tudo é uma mentira.

— Como foi que você descobriu? O Nexus… Ele deveria impedir que isso acontecesse!

O vento veio com mais força e eu abri os olhos, os braços abertos. A cidade luzia com meus olhos encharcados, as luzes borrando-se em uma mancha cintilante.

— Uma falha… uma falha no sistema, tão pequena, tão intensa! — expliquei, aflita — Um erro nos dados que danifica pequenas porções da simulação, é visível, audível…

— Uma falha tão grosseira? Em nosso sistema? — Meredith parecia confusa, e não seria para menos. Ela também parecia mais próxima de mim, sua voz parecia mais perto de mim.

— Não, uma falha no sistema deles — eu sibilei, quase temendo dizer aquilo — Nós somos uma simulação.

Meredith soltou um gemido de dúvida e expliquei a ela, meio em choque, meio aflita, o que acontecera no Nexus. Que uma anomalia surgiu enquanto eu usava um computador e eu vi a mim mesma, deitada na central da CPN, em estase. E que o fato de eu quase ter morrido de verdade tinha a ver com o fato de que, eu não apenas descobrira que eu era uma simulação enquanto Lira, mas também que era uma simulação enquanto Thea. Que nada da minha suposta realidade era verdade.

— Isso, isso é impossível, Thea! — Meredith respondeu, mas ela parecia tão em choque quanto eu; e nem era o pior de tudo — Nós… não… não pode ser…

— Nossa inteligência artificial é parte de algo maior e mais potente — cada palavra que eu dizia me instigava a pular dali; a vida não fazia mais sentido, nada fazia sentido — Quem quer que tenha construído nosso Nexus, sabia que nós éramos uma simulação e o fizeram intencionalmente. Uma simulação dentro de outra simulação.

A mulher não conseguiu falar por longos minutos e nós duas permanecemos em silêncio, mergulhadas em uma melancolia que aos poucos nos destruía porque ninguém em sã consciência viveria em paz sabendo que sua vida não é nada mais do que um conjunto de dados em algum computador. Não, não havia sentido ou propósito, nem esperança. Não havia mais nada em mim que me motivasse a ver minha vida como antes. Agora eu só via o cinza da tela de dados, mais nada.

— Se nós…

— Não sei dizer se a morte nos levaria até a fonte, ou se simplesmente nos mataria — murmurei, observando a distância entre o chão e eu e eram múltiplos andares — Não sei dizer mais nada, não sei da minha vida… Nem sei quem eu sou. O meu propósito. Não sei.

— THEA, NÃO! — Meredith gritou quando eu lancei meu corpo para a frente, o vento balançando minhas roupas e o cabelo.

Mas era tarde, eu já estava no ar. As luzes da cidade brilhavam para mim, intensas e coloridas e faixas de longa exposição, tamanha a velocidade com que eu caía. Fechei os olhos, desejando estar errada, desejando morrer e morrer de verdade, e esquecer da minha existência. Uma vida sem propósito era uma vida vazia, e eu já não tinha mais nada do que antes eu tivera.

O impacto foi forte, brutal, mas praticamente indolor. Eu estava morta no momento em que caí de costas em cima de um carro. Não houve tempo para me despedir do mundo, um mundo que sequer era real.

No mesmo instante em que o mundo e sua existência desapareceu aos meus sentidos, luz brilhou diante de meus olhos, conforme eu me sentava em uma maca de metal, parecida com a que tínhamos no CPN. Ofegante, eu me sentei depressa, tentando associar o que estava acontecendo.

Ao meu redor, telas holográficas luziam, indicando dados médicos que iam de batimentos cardíacos, pressão e temperatura do corpo. A maca onde eu estava parecia mais um casulo, ou uma incubadora extremamente larga. Toda a sala era feita em titânio, negro, e janelas de vidro liso mostravam bilhões de estrelas luzindo em um céu escuro.

Céu não, eu disse a mim mesma, com espanto mas uma certeza absurda, estou no espaço.

Só então percebi que duas moças usando jalecos brancos me amparavam, uma delas injetando algo em meu braço, provavelmente um calmante ou sedativo. A outra segurava meu ombro, gentilmente, e sorriu para mim. Eram jovens, como Meredith e provavelmente médicas ou enfermeiras.

— Você está bem, acabou de sair da estase — ela disse, tentando me amparar; eu olhei em pânico, de um lado ao outro, percebendo que eu estava viva. Ou eu havia sonhado com tudo aquilo ou minha morte me tirara da simulação. De qualquer forma, ambas as hipóteses me deixavam aflita — Esta é a nave Kios-7. Estamos em Andrômeda. Meu nome é Marylin e esta é Lily. Você está bem, está tudo bem.

Não estava nada bem, nem mesmo em um milhão de anos estaria bem. As lembranças vinham de novo, amargas e doloridos e confusas. Thea, eu pensei. Meu nome é mesmo Thea.

— Você se lembra? Quem você é? — a moça chamada Lily perguntou, docemente.

Atordoada, eu assenti devagar. Aos poucos eu assimilava tudo que minha mente recordava.

— Meu nome é Thea Gael. Eu vim da Terra. Kios-7. A última nave colonizadora. Thea… Gael… — eu murmurei, mas minha consciência oscilou.

Marylin me deitou outra vez e uma presença surgiu ao lado dela. Era um homem, alto, vestido de branco, mas não como um médico. Minha visão embaçada discernia pouco de seu rosto, mas era bonito e áustero, uma barba prateada rodeava seu queixo e bochechas. Seu cabelo, também prateado, era bem aparado e penteado para trás. Seus olhos eram cinzentos e ele tinha uma aura de alguém que passava segurança aos outros. Senti-me segura, até ouvi-lo falar:

— Olá, Thea Gael — ele pronunciou, sua voz grave, mas usada de forma gentil; eu sentia minha visão escurecer aos poucos, mas ainda pude ouvi-lo antes de desmaiar — Eu sou Nexus.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s