CÉU CINZA

Os dias passavam como uma brisa gelada, percorrendo seus cabelos longos e judiados, e apagando a chama que Aurora tentava manter acesa dentro de si, em vão. Ela se esvaía, lentamente, às vezes parecia tão perto de apagar que o alívio surgia, sutil. Então, ela tornava a acender e a dor retornava, pior do que antes, pior do que nunca.

Sonhos estranhos perturbavam o pouco de sono que possuía, a exaustão mental se alastrava como uma praga pelo seu corpo. Não havia memórias da última vez em que conseguira sair da cama para fazer algo realmente útil. Impossível negar como inutilidade assombra a humanidade; abriu os olhos, já é dia. Era dia quando adormeceu; é sempre dia, mas é sempre escuro também.

Houve um tempo em que as cores eram vívidas, intensas; agora tudo mergulha em um pálido opaco que lhe dói a vista e a desmotiva. Nem o sol parece brilhar mais; ele torra sua cabeça, um calor abismal, mas não tem mais luz. Se a culpa lhe pertence, já não sabe; seu descanso se reserva a se culpar por ingenuidade.

E se doía antes, o mal que a faz agora é descontrolado. Ódio floresce em seu peito, mãos trêmulas, lábios feridos, ela é como um lobo ensandecido, o rosto mergulhado em dormência. A dor, a dor, a dor! Que falta de amor sente agora, a apatia lhe sobe as entranhas, o desespero brota em seu peito como uma flor perdida em meio a um terreno baldio. Deus, como gostaria de chorar! As lágrimas, contudo, não descem.

“Olhe nos meus olhos” repetia, encarando um espelho sujo num banheiro branco demais. Gotas de seu sangue decoravam a pia, escorrendo do antebraço. A palma suja de Aurora estampava o reflexo, vermelho-escuro que sobrepunha com perfeição seu rosto pálido, magro; olhos da cor do céu durante o crepúsculo a miravam de volta, um olhar morto e perdido. Um olhar de um soldado que retorna da guerra. Aurora parecia-se com alguém que voltara de dez delas.

“Olhe nos meus olhos” ela murmurou, os lábios estremecendo; um tom de rubro doentio lhe tomava conta, cada vez que ela mordia o lábio inferior. Seu punho direito se chocou contra a delicada lâmina, rachando-a. Aurora agarrou a borda da pia e berrou, apertando com tamanha força que quase quebrou seus próprios punhos. Outra vez seu punho direito foi na direção do espelho. Uma vez mais, uma vez mais, uma vez… Respirou fundo, tão fundo que percebeu que quase se esquecera de respirar. Cacos do espelho espalharam-se por todo o banheiro, refletindo raios de luz para todos os lados. Sangue pingava das suas juntas agora, pálidas e feridas; ela abriu as mãos diante de si, olhando-as com um apatia quase cruel.

Dedos finos e tortos, lambuzados em um líquido tão vermelho quanto o pior dos pecados; sentia tanta dor que uma ferida a mais não lhe importava. Trêmula, beirando a loucura, Aurora aproximou uma das mãos à face. O toque gelado pareceu sacudi-la de seu estupor por breves momentos. Olhando para o espelho destruído no cabinete, sua mão deslizou pela própria bochecha; um rastro de sangue marcou-a, porém, pareceu mergulhada outra vez em delírio.

Ben, Ben, Ben… Olhe nos meus olhos, desgraçado!” ela murmurou, tão baixinho que mal ouviu a si mesma. Tudo girava ao redor de Ben, todas as dores e lamúrias e desgostos; ódio lhe consumia, Aurora sentia, cada vez mais longe, sua habilidade de sentir. Esperava que morresse quando finalmente se tornasse apática; não suportaria continuar vivendo plenamente vazia.

O toque de Ben era uma lembrança alarmante, que lhe pegava desprevinida, na calada da noite, quando estava ocupada demais se embebedando. Era uma memória gélida que fazia seu corpo arder, em fúria e em desejo; descarregava as emoções nas paredes do quarto, nos partos e copos. A dor que sentia ao lembrar dele era como se cutucassem sua mente com ferro em brasa; seu corpo inteiro se tornava inútil e dormente. As lágrimas vinha, como uma cachoeira, e junto do choro desolado, vinha o grito gutural que prendia na garganta. Aurora se sentia como um monstro, prestes a se transformar e destruir tudo ao seu redor.

Você é como… uma estrela” Ben dissera, certa vez, numa época em que ela ainda não morrera por causa dele, como morrera tantas vezes mais tarde, todas as noites de todos os dias. “Um monte de energia concentrada, irradiando luz e calor e beleza… Mas eventualmente, você vai implodir e vai levar tudo ao seu redor com você.”

“Até você?” ela proferira, com uma suavidade que já não existia mais em seu ser como um todo. Sua alma se despira de tudo aquilo, ferida, corrompida. Seus olhos mergulharam nos dele, como faziam todas as vezes em que estavam juntos, harmoniosamente caóticos. Naquela época o toque dele era elétrico, superficial; a deixava estagnada, entorpecida. Por vezes, se esquecia de respirar, soltando longos suspiros quando se dava conta que lhe faltava ar.

“Com um pouco de sorte, talvez”, ele dissera, olhando-a com aquele par de ônix, que lhe causavam calafrios de uma ponta da espinha à outra. Aurora ainda se lembrava de como as unhas dele estava fincadas em seu pescoço, enquanto falava; “Que péssima estrela você seria se não me levasse junto com você, na sua auto-destruição.”

Abraçando a si mesma, seu corpo tremeu; de frio, de medo, de desgosto. Voltou a si, finalmente e notou a insensibilidade em seu corpo. Sangue lhe enchia a boca, deixando-lhe um gosto amargo e melancólico; seus olhos estavam cheios de lágrimas, cristalinas, que corriam por seu rosto, deixando rastros menores nas manchas de sangue em suas bochechas e queixo. Olhou para o espelho moído, destruído em um ataque de ódio descontrolado; ironia cruel era o que via, um reflexo detalhado de seu interior, daquilo que ela tinha dentro de si.

Tanto tempo isolada a fazia delirar, cada vez pior. Seus passos eram sempre bamboleantes, como se andasse sem rumo pelo mundo; era meia verdade. A lembrança de Ben queimou em sua mente, ardendo contra sua própria alma. Se toda vez que se desgraçasse, mergulhasse naquele inferno terrível que era sentir todas as coisas, e ver essas emoções morrerem lentamente, desejava não mais experimentar aquilo. Contudo, a sensação familiar de aquela tragédia seria única, irreversível, lhe comia o fígado. Ofegante, encarou o espelho, rachado e destruído, mas Aurora viu apenas o nada.

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