O AQUÁRIO

Quando eu era mais nova, eu costumava escrever muito sobre o Caos e sobre como todas as coisas do universo dependiam do Caos e tão somente dele. Eu o tratava como uma energia monstruosa e onipresente, que tinha uma beleza característica, mas uma beleza bruta. Era infernal e destrutivo, engolindo os mundos de uma só vez. E na primeira vez em que vi Aurora, eu vi o Caos em pessoa; e todos os meus conceitos foram jogados no lixo, resquícios de uma alucinação antiga.

Eu a vi primeiro, andando pelo sítio arqueológico em que eu trabalhava, uma área isolada da praia da cidade pequena da Irlanda. Os ombros caídos dela me disseram muito: uma pessoa exausta, carregando o mundo nas costas. Em seu caso, eram os mundos. Entorpecida pela presença de uma Guia, meus olhos se fecharam para o que restava dela e quando ela descobriu que eu buscava o portal para Animalia, desistiu e partiu.

A segunda vez em que nos vimos, ela me procurou às portas de minha casa, em Dublin. Olhos azuis me encaravam, desesperados, porém orgulhosos; eram brilhantes, mas escuros, como encarar um céu estrelado. Quando mais próxima, vi também que suas írises tinham leves resquícios amarelos: era um céu com um pouco do sol; Aurora era mais como o crepúsculo, mais do que como a alvorada. Os cabelos louros eram escuros e ela os prendia em um coque bagunçado, que sofria para sustentar o peso da juba. Tinha olheiras fortes e estava muito pálida. Olhou-me com intensidade, medindo-me de cima a baixo, até que me pediu abrigo e orientação. Atrás dela estavam os companheiros fiéis: o forasteiro devoto e o profundo cético, parecendo tão cansados quanto ela. O homem era mais alto que os dois e a observava com olhos cheios, preparado para salvá-la de qualquer coisa. O rapaz parecia só querer ir para casa.

Dei um quarto para cada um, deixando o mais perto da biblioteca para ela, sabendo que de madrugada ela levantaria, sem sono, e vagaria pela casa em busca de alguma distração. A responsabilidade nos deixa exausto; a tristeza nos mantém acordados. No dia seguinte, conversamos.

Olhos tristes e perdidos me olhavam, sem fé e sem esperança. Ela usava um batom púrpura que desvaneceu após algumas horas. Em outras circunstâncias, ela talvez tivesse o retocado; daquela vez, não se importou. Pediu-me que a ensinasse, que a ajudasse a aprender seus poderes e destravá-los de uma só vez. “Eu vi o fim do mundo” ela me disse, inúmeras vezes, olhos distantes, expressão vazia “E é terrível.” Eu também vira o fim do mundo e nós tínhamos pouco tempo para torna-la poderosa o bastante para equilibrar os universos.

Pela manhã seguinte, nós já treinávamos na minha academia particular. Alta, magricela e mal-humorada: Aurora me encarava com feições melancólicas e era extremamente expressiva. Havia linhas de expressão em sua testa, uma vez que ela mantinha o cenho franzido quase todo o tempo, em uma careta de frustração por pensar demais. Sua beleza era etérea, única e estava vinculada a seu cenho franzido e seus olhos expressivos. Ela arrastava os pés para caminhar e toda vez que falhava nos exercícios de meditação, ela engolia um grito de raiva e limitava-se a cerrar os punhos. Todas as manhãs nós treinávamos, e todas as manhãs ela frustrava-se ao falhar. No terceiro dia, ela não fora capaz de abrir uma fresta no tecido dos mundos; irritada, ela soltou um urro e mordeu os lábios. No mesmo instante em que seus joelhos bateram no chão quando ela caiu, as mãos agarrando os cabelos, Jon e Benjamin correram para ajudá-la. O batom púrpura tinha um propósito, eu percebera: esconder as feridas que ela causava ao morder o lábio inferior, de onde jorrava sangue naquele momento. Aurora era exaustão e tristeza, mas ela também era fúria. Fúria, fúria, fúria. Crua e bruta.

Descobri que o fardo era demais e que o destino estraçalhava ela aos poucos. Havia passado entre ela e Benjamin, e havia um monte de sentimentos incertos em Jon. E eu me via nela como se olhar para aquela moça fosse um espelho de espíritos. Jovem, ela parecia velha e cada vez mais cansada; Aurora representava o que eu era agora. Quando eu tinha a mesma idade que ela, eu era arrogante e famosa no colégio e na universidade. A minha família era estável e tínhamos uma fortuna imensurável, o que me permitiu ser uma pessoa mimada por anos, torrando dinheiro com absurdos, enquanto mudava de graduação a cada semestre. Eu não tive amigos e era frustrada por isso; demorei a perceber que existia uma diferença entre ser popular e ser amigável. Aurora não tinha nada daquilo e enquanto eu levei anos para amadurecer e me tornar quem eu era, aquela menina precisava mudar da noite para o dia se quisesse cumprir com sua missão.

Benjamin atormentava-a o tempo todo, dizendo que deveria voltar para casa, que ela deveria buscar ajuda de um médico, que estava ficando louca. Era penoso ver os olhos dela brilhando ao vê-lo, apaixonada e destruída, desolada. Ele não acreditava; não era novidade, o equilíbrio demanda o cético, assim como demanda o iludido e aquele que se mantém entre eles. O fanatismo e a indiferença são armas contra o equilíbrio. Aos poucos, Aurora parecia ceder aos pedidos dele e Jon voltava para lhe dizer que sua missão ainda estava para ser concluída, que ela tinha um dom, que deveria cumprir com seu destino. Indiferença e fanatismo, tirando Aurora do equilíbrio, mesmo sendo ela o próprio caos.

No quinto dia de estadia, ela me contou sobre sua história com Benjamin e sobre como sentia-se vazia desde então. Magoada e reprimida, ela dependia do silêncio e da paz para organizar sua mente, que estava sempre um caos incontrolável. “Você é o Caos” eu lhe disse e ela deu-me um sorriso que só lhe cobria os lábios, não os olhos. “Eu sei” ela respondeu, fria. Ela o chamava de “Ben” e evitara-o durante muito tempo, simplesmente porque era assustador demais gostar de alguém. Sua insistência obrigaram-na a buscar nele o que ela não encontrava em lugar nenhum mais. Ela falava dele com uma mistura de paixão e melancolia desesperançada, olhos brilhantes, porém a expressão vazia. Benjamin desistira dela, ela dissera, depois que ela decidira se apegar a ele. “Rejeitada e trocada” ela murmurara, os olhos distantes “Eu não fui nada para ele.” Nenhuma só lágrima caiu ali, para meu espanto. Não me assustei entretanto, quando de madrugada, ouvi-a chorando. Tanta dor e tantas lágrimas por uma coisa que eu não era capaz de conceber.

Os dias que se seguiram eram assim: os treinos (que eram um fiasco) pela manhã; durante a tarde, ela escapava de Benjamin ou Jon por algumas horas, escondida na biblioteca ou em qualquer cômodo, desde que eles não a chateassem com discursos sobre loucura ou sobre destino; à noite, enquanto todos dormiam e eu trabalhava até tarde, ela enfiava o rosto no travesseiro e chorava até o raiar do sol. No décimo dia, minha agonia ao vê-la em tanto sofrimento atingiu seu ápice e decidi partilhar com ela a visão que tive antes de tomar um rumo em minha vida.

A piscina em minha casa era enorme e profunda, mas por um motivo: havia um aquário no andar debaixo da casa. A piscina era somente a parte externa visível dele, sem animais. Na parte debaixo, um salão grandioso e circular, cujas paredes eram feitas de vidro, estava um aquário gigante. A iluminação vinha da parte de dentro, azulada e tremeluzente, iluminando o chão em camadas de luz em refração. Não havia peixes, porque não era um aquário ordinário, mas uma fresta que estava aberta para um universo diferente, paralelo. Levei Aurora até lá e deixei-a assistindo maravilhada, as bolhas brilhantes moverem-se, dançando, de um lado para o outro, como estrelas salpicadas de pó cósmico. Havia estrelas e nébulas, como se o universo como o conhecemos estivesse mergulhado ali.

“É uma fresta e do outro lado, está um universo” expliquei a ela “Inatingível, uma vez que abri-lo por completo nos afogaria e atravessar a fresta é perigoso demais. ”

Os olhos dela brilharam para o aquário, como brilhavam para Benjamin. Houve um amor imediato ali que se media com o amor dela pelo cético. Ela sorriu, com os lábios e os olhos, diferente de seu hábito de fingir que estava alegre, o olhar sempre morto.

Vê-la pelas costas, em pé em frente à fresta, observando o brilho que inundava a água, era uma visão mágica que aos poucos se tornou inquietante. Aurora gastava as noites observando as nébulas iluminarem a água e a poeira cósmica respondia a seu humor, trocando de cores, afundando o salão em um mar de espectros coloridos distintos. Azul, laranja e roxo, verde e dourado, e o vulto escuro de Aurora parado ali, maravilhada, as mãos sobre o vidro, cravando as unhas, numa tentativa de atravessar para aquele universo, longe de tudo e todos.

Ela chorava ali também e seu sofrimento ainda era intenso, mas o aquário cumpria sua função: força-la a sentir. Cada vez que Aurora reprimia seus sentimentos, ela os trancava e os destruía, de modo que com o tempo ela se afundou em uma dormência indiferente que poderia lhe custar a vida. Queria confortá-la, mas não era possível. O aquário trabalhava sozinho.

Quando Jon a acompanhou em uma das noites, o lugar luziu dourado e vermelho e os dois ficaram sentados, encarando o brilho e as estrelas que nadavam ali, Aurora em prantos e Jon pasmado. As coisas pioraram quando Benjamin tentou falar com ela. O aquário brilhou enlouquecido, trocando de cores como um prisma no sol.

“Saia daqui” ela lhe dissera, a voz embargada “Eu não quero te ver.”

Antes que ele tentasse insistir, tirei-o dali e ordenei que não a aborrecesse. Ele me lançou um olhar perdido, um olhar que entendia muito bem.

Ver Aurora ajoelhada, com o aquário brilhando em mil cores de novo, era doloroso e trazia memórias horríveis. Ela abraçou os joelhos e soluçou alto, partindo meu coração com cada pedido de misericórdia que fazia.

Em um tempo passado, eu estivera no lugar de Benjamin e destruíra alguém que me era devoto demais. Impassível e apaixonado, deixei-o no altar porque eu me enchia de dúvidas e de medos e não era capaz de nutrir por ele o mesmo tipo de devoção nem mesmo qualquer sentimento que fosse recíproco. Falhei em dizê-lo antes que nos conhecêssemos melhor; permiti-o entregar-se para mim e eu o destruí, sem qualquer misericórdia. Ver Aurora em prantos me doía em um nível pessoal; ela era Liam e eu era Benjamin. Permitimo-los a amar-nos, quando não sentíamos nada; Benjamin foi mais rápido do que eu, não esperou pelo altar.

Ver Aurora ali, a silhueta contornada pelas luzes coloridas, como se beijada pela Aurora Boreal, me trazia uma dor horrível e desejei consertá-la onde falhara em consertar Liam. “Ele me amou” pensei ali, ouvindo os soluços desesperados de Aurora “E eu parti seu coração em níveis tenebrosos.”

Com o tempo, passei a me preocupar, uma vez que intenção de a apresentar ao Aquário da Harmonia, como eu o chamava, era para que aliviasse sua angústia. Todas as noites ela estava lá e todas as noites chorava, às vezes em tamanho sofrimento, que eu não podia me controlar e chorava também ou então ia embora, quando se tornava insuportável demais. Minha tentativa de salvá-la parecia desgraçá-la ainda mais.

Depois de um tempo, desisti de vê-la porque a dor que emanava dela era horrível e só de imaginá-la sentindo aquilo, me dava arrepios. E se havia um Deus ou se o Universo me ouvia, eu implorei por misericórdia para aquela moça.


Misericórdia. As anotações de Audrey terminavam com aquela palavra. Aurora estava em prantos de novo, em frente ao aquário, largada no chão. Aos poucos, enquanto lia, sentia raiva de Audrey, mas depois esqueceu. A mulher fizera de tudo para ajudá-la, não podia culpa-la por meia dúzia de anotações que sequer era ofensivas. Audrey era uma observadora e pessoas assim gostavam de observar.

Desolada, Aurora encarou o aquário reluzente. Todas as noites estivera lá e sentira a influência harmônica do universo paralelo ali exposto, mas a dor que sentia nunca cessava. Vinte dias seguidos e ela não conseguira parar de chorar em nenhum momento. Colocou as anotações de Audrey no chão e enterrou o rosto nas mãos.

Gritou, um som abafado, longo e alto. Sentiu o peito doer e o desespero cair sobre ela. Audrey dizia que o aquário deveria ter funcionado, mas ele falhara. Era bem simples: as cores respondiam de acordo com as emoções. Quando ficava azul, era porque o equilíbrio havia sido atingido. Quando Ben a atormentara, ele brilhara intenso, mudando de cores tão depressa quanto o piscar de olhos dela: as emoções dela viraram um caos brutal outra vez, um caos que ele alimentava, forçando sem querer sobre Aurora um desejo desesperado de tê-lo e de amá-lo e de destruí-lo por feri-la tão profundamente. Sem luz, o aquário diria que as emoções haviam morrido e Aurora notara como aos poucos ele parecia desvanecer, cada vez mais fraco.

Misericórdia, misericórdia. — murmurou, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Eu já não aguento mais!

Aurora respirou fundo, segurando outro soluço e encarou a fresta do universo paralelo. Apertou o peito com força, sentindo um desespero súbito, que aos poucos foi sumindo até não restar mais nada. O aquário parecia não se capaz de curá-la, de forma alguma e, se continuasse ali, ela choraria pela eternidade ou até que finalmente tirasse a própria vida. Fechou os olhos e sentiu a dor que a consumia voltar, desta vez mais forte e mais profunda. Ela enxugou o rosto com as mangas da blusa, contudo, duas lágrimas ainda ousaram cair pelos olhos fechados. Aurora gritou outra vez, esticando o pescoço, o rosto voltado para o teto. Apertou o peito com mais força, tentando arrancar nas mãos o desespero.

Esvaziou-se de tudo o que sentia, adormecendo tudo dentro de si. O aquário não funcionaria com ela; estava destruída. Não havia harmonia dentro dela, somente o caos e o caos a engoliu outra vez, de uma forma que ela sabia agora, era permanente

— Eu não sinto nada — ela gritou, encostando a cabeça no chão gelado por alguns segundos, depois retornando a posição inicial, o rosto encharcado de lágrimas de novo — Por favor… Poupe-me dessa dor! Eu não aguento mais!

O corpo parecia dormente e insensível, gelado. Aurora abriu os olhos e não viu nada. O aquário escurecera.

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