ARRANHA-CÉUS

O céu era da cor de cimento fresco e parecia enclausurar Aurora naquele mundo tenebroso. Ofegante, ela levou as mãos ao peito, enfiando os dedos contra a blusa de algodão. Sentia sua respiração tornar-se cada vez mais difícil e rústica.

As pernas doíam, vacilantes; não sabia por quanto tempo mais conseguiria correr. Talvez mais um quilômetro ou menos. Sabia que se parasse, desabaria em todos os sentidos possíveis.

O asfalto estivera quente nos últimos dias, dias estes em que gota nenhuma de chuva se atrevera a cair. O sol torrara o negrume do chão, tornando-o mais febril do que Aurora nos meses passados. Agora, enquanto corria descalça por ruas e avenidas movimentadas, Aurora sentia o toque bruto e gelado do chão; seus pés ardiam e estavam dando cãibras, tão escuros de sujeira quanto o céu acima de sua cabeça.

A dor em seu peito afogava as dores do resto de seu corpo. Enfiou os dedos na carne de seu pescoço pálido e manchado com marcas vermelhas de arranhões que ela não podia controlar. Atravessou dois cruzamentos pelo meio da rua, de olhos fechados. Ouviu mil buzinas soarem em uma melodia caótica, mas Aurora era o próprio caos e o barulho não a fez abrir os olhos. Nenhum carro sequer raspou nela e ela, ensandecida, não se importava.

Quantas garrafas tinha bebido? Duas? Três? Não era capaz de se lembrar. Seu sangue vomitava álcool, álcool demais para uma moça tão jovem, álcool demais para uma moça… Pensava estar bêbada o suficiente para ser incapaz de andar, mas o desgosto a mantinha sóbria. Que forças tinha a vodca contra o desgosto? Aurora não tinha respostas, era esse seu dilema.

A paisagem passava por ela conforme ela passava pela paisagem, feito uma flecha desordenada. Casas coloridas viravam borrões meio luminosos, carros escuros viravam sombras ruidosas, pessoas viravam vultos desanimados. Aurora não ia pela calçada, mas pela rua, cruzando motos e caminhões, obrigando motoristas a buzinar quando passava em frente a seus carros e ônibus sem sequer olhar. Não tinha mais respeito por leis, nem mesmo pela vida.

Suor escorria de sua testa, grudando os cabelos escuros contra um rosto pálido, magro e adoecido. O vento gelado, contudo, não permitia que Aurora sentisse calor. O pedaço de gelo que tinha em si só lhe permitia sentir frio. Olhos opacos rodopiavam furtivos em suas órbitas, alucinadamente procurando um caminho que não conseguia encontrar. Não sabia quantas ruas correra e a cidade era grande o bastante para perder-se com facilidade. Pensou em Ben, longe, distante demais para ela implorar.

A chuva desceu em uma só cortina, com uma força imensurável. Os punhos cerrados de Aurora fecharam-se com ainda mais força. Um trovão rugiu perto de onde ela estava; alto, forte, gutural, como se fosse um dragão adormecido que acordara em plena fúria. A chuva caiu com mais força.

As roupas brancas dela ganharam tons transparentes, que em um outro dia talvez, Aurora se preocupasse. Ali, ela não se importou, sua mente focada em fugir de algo que ela não conseguia ver. Olhava freneticamente para trás, mas só via faróis e gotas grossas de chuvas, misturando-se na atmosfera, criando um borrão indiscernível de luz e água e refração. Ninguém a seguia, Aurora fugia de si mesma.

A escuridão da noite era tanta que ela já não enxergava muito bem o caminho que seguia, mas prosseguiu. Não sem medo, porque Aurora era o medo, cheia dele, até o céu de sua boca, até afogar-se nele. Abriu os braços para abraçar a escuridão, contudo, falhou; era o frio tentando matar o que já estava morto. Lembrou-se de Ben dizendo-lhe que o mundo era um lugar vazio e escuro, e que deveria aprender a abraçar e incorporar a escuridão para uma vida menos miserável. Ben tinha todas as respostas e se negara a dá-las a Aurora.

“Eu não a amo” ele dissera, enchendo Aurora de uma dor que ela não conseguia discernir “e nunca vou amá-la.”

Quis chorar, mas já não conseguia. Tinha os olhos inchados de tanto fazê-lo, e as lágrimas que tinha haviam secado e amargado sua doçura mais rápido que veneno de víboras impregnado em uma ferida. A chuva pintou-lhe lágrimas falsas no rosto e Aurora fez bom uso dessa mentira, porém estava sufocada com coisas que não entendia e coisas que não conseguia se livrar.

O mundo ao seu redor desabava, quase literalmente. Árvores caíam enquanto um vento forte ia contra ela, forçando-a para trás conforme ela corria, sempre em frente. Os dedos das mãos começavam a doer pelo frio, mas Aurora não parou. Fosse o que fosse aquela tempestade, o que a atormentava era mil vezes pior.

A última rua que virou era uma descida enorme, com calçadas de cimento claro e azulejos da cor de giz. Os muros das casas eram de cores claras em tons pastéis, de rosa e azul ao laranja e verde, passando por ela em um borrão escuro. Os postes tinham luzes amarelas que destruíam as cores, mas Aurora não era capaz de discernir nada ali que não fosse o horizonte e mesmo este era um vazio com pontos luminosos, faróis de carro em um pano de fundo catastrófico. A água descia junto com ela, formando uma enxurrada enorme e violenta, que se debatia com o meio-fio e invadia a calçada. As pernas de Aurora estavam mergulhadas até as panturrilhas, água suja e gélida. A rua terminava em uma avenida na praia e Aurora cruzou-a sem misericórdia de si mesma.

Enfiou os pés na areia encharcada, clara e sem brilho, os céus sobre o oceano eram escuros e conturbados, raios e trovões explodindo para todos os lados, o som ensurdecedor fazendo a terra tremer. Aurora sentia a força do som estremecer seus ossos e naquele breve momento voltou a si. Sentiu o cheiro salgado do mar, o aroma da chuva, amargo e intenso, e sua tenção pareceu voltar para o lugar onde estava. Sentiu-se atordoada, os efeitos do álcool finalmente a atingindo; as mãos estavam adormecendo, talvez de frio ou embriaguez, era difícil de dizer. Fechou os olhos com força, ainda correndo pela praia vazia, e um trovão soou tão perto dela que Aurora pensou que a chuva era ela, na verdade.

Gritou, furiosa. Os punhos cerrados queimavam de frio e sentiu a dor que as unhas causavam ao fincarem-se na própria carne. Sangue escorreu das feridas que as unhas causavam e Aurora gritou mais alto. Ninguém parou, porque ninguém ouvia. Ela urrou outra vez, mais forte, mais desesperada e um trovão fez terra estremecer de novo. Aurora abriu os olhos e mergulhou de novo em sua histeria etérea, os olhos cintilando com a alucinação que a impedia de manter-se sã em seu próprio ambiente. Havia uma tempestade destruindo o mundo e uma tempestade devastando-a sem piedade.

Chegou em um píer, cheio de barracas de petiscos, fechadas e assediadas pelo vento furioso. Aurora atravessou-o sem pensar, escorregando no chão de madeira polida com os pés gelados e feridos, e caindo com um baque. Sentiu a boca sangrar, mas chuva lavou os lábios já rachados dela e com uma determinação atípica, ela se levantou e voltou a correr.

O fim do píer veio mais depressa do que ela pudera calcular. Olhou para o horizonte uma última vez, observando a tempestade monstruosa que assolaria a cidade, enquanto saltava para dentro do mar furioso. Outro trovão explodiu e o céu iluminou-se, desenhando nas nuvens com luz, onde a densidade era menor e podia espalhar a visão brilhante, criando padrões monstruosos no ar. Então, Aurora mergulhou em um oceano de gelo.

Nem mesmo a água fria a tirou de seu frenesi, meio são e meio insano, um pé em um mundo imaginário e outro em um oceano, tão real que a deixava mais fria do que já era por natureza. A água era tão escura quanto o céu, a maré violenta jogando-a para trás e depois lançando-a para frente, Aurora nadando em direção ao norte e em direção ao fundo. O sal queimou as feridas pelo corpo, mas a dor não a atingia como deveria, a perturbação do desespero em sua mente, vozes gritando em seu ouvido coisas terríveis. Ela ainda podia sentir os trovões e ouvi-los, o som abafado através da água, mas a força era capaz de estremecer mesmo o mar. Aurora sentia as vibrações, sentia o corpo sendo jogado para o fundo. Aos poucos os pulmões iam se esvaziando e logo ela precisaria de ar, e sabia que se recusaria a subir.

A voz de Ben soou como um assobio em seus ouvidos.

“Suicidas vão para o inferno” ele dissera aquilo um bilhão de vezes, assim como tantas outras pessoas diziam a mesma coisa e Aurora ignorava-os por puro desapreço.

“Você sequer acredita em Deus” ela resmungara.

“Você também não.”

“Quem é Deus perto do Diabo, Ben?”

Ben oferecera-lhe o mesmo sorriso mesquinho, a única coisa que fora capaz de oferecer que não fosse dor e desgosto e sofrimento. Dissera-lhe que ela era o Diabo e que ela destruía tudo o que tocava. Aurora sabia que era verdade, e se o mar que a abraçava tão sem medo ainda estava inteiro, é porque ela ainda não havia o tocado por completo.

Aurora soprou o que lhe restava de ar e sentiu o coração acelerar. A tempestade tornara o mar negro e agora ela nadava no escuro. As roupas a puxavam para baixo com mais força. Ela sentia o corpo dormente de frio, chegando ao ponto de quase não senti-lo mais. Livrou-se da jaqueta e continuou nadando, mesmo que seu corpo implorasse por oxigênio.

As pontadas vieram no mesmo ritmo dos trovões e raios que estavam o céu que ela quase já não via mais.

“Eles estão vindo, Ben!” ela lhe dissera, dia após dia, e dia após dia ele a ignorara.

Eles quem?”

“Eu não… não sei” a partir dali Aurora já não confiava em mais nada, nem mesmo em si mesma. Os sonhos a atormentavam com visões de tempestades ferozes e cidades arruinadas, mas eram sonhos e apenas isso. Mas o mundo seguia o roteiro, com um calor sem fim e de repente a chuva forte e a sensação de um apocalipse atormentando sua vida já tão atormentada.

Aurora surtara por tantos motivos que ela se afogava sem nem mesmo saber o porquê daquele desespero horrível.

“Não tem ninguém vindo, Aurora” ele dissera-lhe, oferecendo-lhe o mesmo sorriso mesquinho e zombeteiro, como se ela fosse um nada que ele ouvia por diversão. “Você deve estar ficando louca!”

Aurora desejou que Ben morresse com a tempestade, tão amarga e enfurecida, desejou que ele morresse naquilo que ela era e sempre fora. Água gelada invadiu seus pulmões, pelo nariz e pela boca, salgada, amarga, gelada como o Ártico e sua imensidão de gelo. O sal queimou a garganta machucada de tanto berrar e ela apertou o pescoço, parada em alto mar, em uma escuridão que se espalhava por todos os lados, exceto em raros momentos, quando raios iluminavam um céu mais negro do que nanquim.

A consciência dela pesou e escureceu. Aurora sentiu os olhos, ardendo, fecharem-se devagar.

Um barulho de passos fortes contra metal ecoou, duas, cinco, vinte, cinquenta vezes. O toque do mar frio sumira de repente, mas ainda sentia a temperatura baixa. Aurora abriu os olhos e viu-se correndo escada acima, descalça e os mesmos pés sujos e frios, em um prédio luxuoso. Ouvia o furacão rugir do lado de fora, enquanto passava por pequenas janelas que começavam a trincar com a pressão do vento. Os ouvidos dela assobiaram quanto algumas janelas estouraram.

Deu um soco na parede, sem parar de subir as escadas. Sentiu a dor e deu um suspiro. Talvez ainda estivesse sonhando, mas alguma coisa lhe dizia que fizera algo mais do que vagar em sua imaginação quando estivera no mar. O peso que sentia dentro de si, a dor angustiante que crescia junto com uma agonia insuportável só aumentara. A alucinação podia ter sido para atormentá-la mais ainda. Deus talvez tivesse dado a Ben seu coração e ele o apertava em suas mãos, esmagando-o sem misericórdia, sangue voando para todos os lados.

O instinto guiava seus passos, em direção ao terraço do prédio. Ela escancarou a porta com violência e seus olhos fitaram o céu, estupefata, com a tempestade escura e bruta que os desolava.

— Aurora!

A voz de Ben ecoou pela cobertura, enquanto os ventos varriam os cabelos ensopados de Aurora. Seus olhos se cruzaram com uma violência desumana, safiras opacas contra um par de ônix, tão fundos e inclementes que Aurora quase cambaleou. Não parou de correr, nem de olhá-lo, parado sobre o parapeito que circundava o terraço, os ventos balançando-o vertiginosamente.

— Ben — ela murmurou, indo em sua direção.

— Eles estão vindo — ele proferiu com a voz rouca.

Aurora não respondeu. Correu em sua direção, lançando-se contra ele, os braços em volta de seu tórax, o casaco escuro dele meio seco e meio quente, e forçou-se adiante. Seus pés deixaram o chão, Aurora apertada contra seu peito, as mãos de Ben rasgando seu rosto. Dor nenhuma era tão agridoce quanto aquela, ardendo de forma prazerosa e doentia.

Seus olhos se encontraram uma última vez, dois meteoros afogados em lagos azuis e turbulentos; ventos divinos tentavam puxá-los para cima inutilmente, enquanto a gravidade infernal os jogava para baixo.

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