storyteller.

Não sei fugir como antes eu fugia das aflições que me perseguiam. Não mais consigo entrar num estado de transe absoluto, fones de ouvido estalando, uma meia surdez a cada segundo, um alívio por me resguardar na minha mente. Não mais.

Tampouco sei dizer como as noites me aflingem, como dói dormir quando meus medos afloram, a solidão e o vazio, corrompidos pela raiva incessante e pelo ódio que não consigo extravasar sob custo algum. O medo de ficar para trás me quebra, em pedaços, e aos poucos eu morro, devagar. Um dia de cada vez.

Cansei de tentar, inutilmente, explicar como eu me sinto ou porque me sinto assim, quando a infinidade de respostas se resumem em frustrar-me com o fato de que eu deveria ter sentimentos descartáveis e flexíveis, que desaparecem na mesma velocidade que surgem, que eu “tenho que seguir em frente.” Como se a todo momento eu vivesse andando para trás; não, estou estagnada.

Desde a infância, eu escrevo pois era a única coisa que me permitia ter esperanças de um dia me encaixar, de pertencer a esse mundo que constantemente luta contra minha vontade, buscando me moldar para uma lacuna a qual nunca vou me encaixar, não importa o esforço. O anseio de ser mais do que ordinária, a necessidade de deixar de ser medíocre era o combustível da minha existência, o que me empurrava para fora da cama e me obrigava a viver. Não mais.

Não… Agora eu sou como o fracasso, destruído e derrotado, abominado como uma falha de sistema cruel em um mundo mais cinza do que eu e minha vida, uma existência que me obriga, dia após dia, ouvir que eu deveria ser grata por ser saudável quando meu corpo se autodestrói, mas ninguém vê, ninguém ouve. Ninguém. Ninguém.

Aos poucos a esperança de um futuro melhor se desfez em pó, diante dos meus olhos, cada tentativa escassa de seguir em frente é rebatida cruelmente, não importa o desejo ou a vontade, toda vez que a esperança surge, ela é incenerada de algum forma.

Dói saber que eventualmente, meu estado de solidão emergirá de novo, que meus amigos se cansam do fardo que minha miséria palpável, a infelicidade que eu trago comigo, causa e que suas vidas têm um futuro; eles partirão, e  não há lugar para mim, não quando eu torno escuro tudo o que eu toco. Tudo ao meu redor morre devagar comigo.

Minha escrita está morta; tolice, parece, mas não é. Essa é uma última tentativa desalentada de expor aquilo que me corrompe. A vida toda eu almejei contar histórias, apenas para ser massacrada com a ideia de que eu fracassei e que não importa o esforço, eu vou fracassar. E a culpa, a sensação de que eu falhei simplesmente por existir, dói e queima tudo em mim. Ódio e dor afloram-se, sim, e eu morro devagar.

Eu odeio sentir. Odeio saber que a culpa dessa maldita desgraça é minha, que eu me permito, que eu tentotento tento e eu falho, falho e falho e continuou falhando metodicamente porque é um efeito colateral de insistir. Não quero estar só, eu tenho medo de ser abandonada, e deixada de lado e partida, eu sei que não vou aguentar muito mais. Não mais.

Que os deuses me perdoem, se o monstro que eu virei justifica toda a dor que me atormenta agora, se eu alguma vez na vida fiz mal; não, não há deuses. Só há dor. E a ausência do desejo pela vida, uma vida vazia e amargurada de alguém que é constantemente espancada pela falta de sorte e a falta de afeto e a falta de tudo. A culpa que me assombra é tão grande que eu preciso estendê-la, mas não é certo. Eu era boa, hoje eu só me vejo como alguém cruel. Eu não quero machucar ninguém, não quero ferir ninguém. Não posso culpar ninguém.

Tamanha dor me consome, uma tristeza que aos poucos se torna física; não há fome ou sede ou desejo, somente o anseio pelo sono, que é regado de maus sonhos, de modo que nem mesmo dormir é mais um porto-seguro. Não posso mais me esconder em um subconsciente, meu mundo parece desabar mas ai de mim, derrubar um só lágrima. Não suporto mais ouvir que não me esforço.

Eu sinto falta da alegria, que existia quando eu escrevia; sinto falta do calor e conforto que as minhas histórias evocavam. Sinto falta de me sentir bem, quando na realidade eu sempre estive mal, mas apenas tinha algo a me distrair. A dor é incessante, vem de dentro para fora; queria ser ouvida, mas não consigo falar. O fardo que eu sou, sequer deveria existir.

Eu imploro, toda noite, quando raia o dia e eu permaneço acordada: que a minha vida acabe de uma só vez, já que de dentro de mim a dor não sai. Rabisco os cadernos, em vão,  às vezes tão destruída que mal me escorrem lágrimas; não há Aurora para me amparar desta vez, não há mais nada.

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ESTRELAS EM PEDAÇOS

THEA — PARTE UM

Thea, parte um

Thea, quer dizer deusa ou divina. É uma adaptação de Theia, a Titã da visão e da luz brilhante do claro céu azul. Thea. Meu nome é Thea.

Uma luz branca e intensa brilhou sobre mim, quando abri os olhos achei que estava cega. O toque da água ainda era intenso, mas não havia água onde eu estava. Eu não sabia onde estava.

Meu Deus, pensei repetidas vezes. As memórias vieram, brutais, de uma só vez. Rostos familiares surgiram: meus pais, minha irmã, meus amigos de escola, o dono da loja de comunicadores, os cientistas… As memórias vinham. Todas elas.

Tentei mexer os braços, mas não consegui. Não conseguia me mover, nada; os pulmões pareciam congelados também. Meus olhos viravam, de um lado ao outro, em pânico; tentei respirar, mas não consegui. Eu me sentia como uma estátua, jogada dentro do mar, água gelada tocando minha pele. Mas não havia água. Meu Deus, não havia água.

Sons ecoavam em meus ouvidos, abafados, como se eu estivesse mergulhada em algo, mas não muito; o suficiente para ouvi-los. Os agudos pios de computadores, suaves; a voz metálica da inteligência artificial respondendo a alguém. Onde eu estava? O que era aquilo? As memórias convergiam e se misturavam e eu não conseguia dizer o que era real do que era sonho. Eu estava sobre uma ponte, o mar agitado abaixo de mim… Mas não era real. Não fazia sentido.

O ar me faltava e minha consciência se esvaía como seda escorrendo por madeira polida.

— O que está acontecendo? — a voz feminina e intensa soou, um eco como se fosse um fantasma distante.

— É Thea, doutora! — outra voz respondeu, também feminina, mas jovem e mais desesperada e inexperiente. — Os sinais vitais… estão sumindo…

Morrendo, eu estava morrendo. Nenhuma parte de meu corpo me respondia, somente meus olhos e o pânico se apoderava de mim com rapidez. O ar não entrava em meus pulmões, sentia a necessidade de ofegar mas não conseguia. A água tocava a minha pele, uma água inexistente.

A luz sumiu, devagar. Tudo escureceu. Não senti mais nada, bem aos poucos. Havia só um eco distante.

— O coração dela parou! — era a voz inexperiente — O desfibrilador! Agora!

Parou, parou, parou… O eco durou por longos instantes, cada vez mais suave e mais distante. Não sentia nem meus pulmões mais, nem mesmo dor. Somente a necessidade de respirar, enquanto as memórias se organizavam na minha mente.

Então, o choque veio. Brutal.

— Vamos, Thea! — a primeira voz ecoou, um pouco mais próxima que antes.

Outro choque. Também brutal. Não doía, mas parecia sacudir as ondas do espaço-tempo onde eu estava. Uma escuridão intensa.

Outra vibração e veio a luz, então. Clara, como antes. E a dor, a dor veio ao mesmo tempo que o ar passou por minha boca e nariz e desceu até os pulmões. O toque da água sumiu, e senti-me dona de mim outra vez. Ofeguei, respirando desesperada. Sem conseguir levantar de onde quer que estivesse deitada, deixei o ambiente ao meu redor se tornar nítido e agarrei o braço de alguém. Tentei apertar com força, mas não havia força em mim. Outra mão pôs-se sobre a minha.

— Thea, acalma-se — era a dona da primeira voz; olhei para ela. Sua figura demorou alguns segundos para sair do borrão de luz e trevas que eram meus olhos e cabelos platinados surgiram, amarrados em um rabo-de-cavalo firme e profissional; ela usava um jaleco branco e a memória que me dizia seu nome ficou clara — Está tudo bem! Respire! Você está bem!

Tentei falar, mas a voz não saiu. Meu corpo estava dolorido e difícil de mover, embora móvel dessa vez. O choque da situação aos poucos dissipava-se, embora nada naquele mundo seria capaz de apagar as memórias da outra vida, o horizonte visto de cima da ponte ou o mar cinza sob ela, agitado como um deus em fúria.

Como esquecer o dia em que eu me jogara de uma ponte, em direção à morte?

* * *

Nova era uma cidade completamente adornada em vidros blindados, que reluziam sob a luz solar, e deixavam tudo muito bem iluminado. Em conjunto com as lâmpadas brancas que iluminavam os ambientes internos, toda a cidade parecia feita de luz e reflexos.

Encostei minha cabeça dolorida em uma das janelas largas do prédio onde eu acordara. Dúzias de pessoas passavam por mim, algumas usando jalecos brancos, com a insígnia dourada de um sol reluzente, identificando-os como funcionários do Centro de Pesquisas de Nova.  O CPN era responsável por avanço tecnológicos e seus estudos, e trabalhava principalmente com biotecnologia. Tinha diversas alas de tratamentos hospitalares, desde doenças mentais até casos irrecuperáveis físicos. A missão principal do Centro de Pesquisas era dar ao impossível, possibilidades.

Eu fazia parte de uma equipe treinada, desde a infância, para auxiliar em tratamentos para distúrbios mentais. As memórias eram mais claras e faziam sentido naquele momento. Meu nome era Thea e eu era um prodígio do CPN.

Meu reflexo no vidro da janela mostrava meu rosto exausto da experiência que eu acabara de acordar. A memória do meu suicídio no mundo Nexus era fresca e violenta e completamente devastadora. E inédita no meu currículo impecável. Um voluntário da ala de saúde mental era sempre emocionalmente estável e saudável, capaz de aguentar as manipulações que a mente lida em circunstâncias extremas. Um voluntário que se mata no Nexus era como se mostrar incapaz de ajudar pacientes com sérios problemas psicológicos.

— Thea? — a voz da doutora que estivera comigo quando acordei soou perto de mim — Você não parece muito bem.

Olhei para ela, sem saber direito o que dizer. Não havia como, em nenhuma circunstância, eu estar bem depois daquela situação.

— É claro que não estou bem, doutora — murmurei, esfregando o rosto nas mãos — Eu não entendo o que aconteceu.

A mulher sentou-se ao meu lado. Seu nome era Meredith Anker e ela era a chefe dos médicos que comandavam o projeto do qual eu fazia parte. Apesar da voz firme e da expressão séria, era jovem e não devia ter mais que trinta anos. Tinha olhos gentis apesar da severidade em seu rosto e colocou a mão sobre meu ombro com delicadeza.

— O Nexus é uma coisa complexa, Thea — ela comentou com suavidade — Honestamente, eu já vi muita gente se matar durante o Nexus, não é incomum. Mas o que me preocupa é o fato de que você quase morreu de verdade. A simulação não deveria afetar você como afetou.

— Eu sou um prodígio, Dra. Anker — eu suspirei, olhando desesperançosa para ela — Saudável e emocionalmente estável. Todos os meus testes foram gabaritados, todos os níveis de tolerância alcançaram pontuações máximas. Ninguém mais do que eu deveria ser capaz de sobreviver ao que o Nexus reflete. E eu falhei.

— O Projeto Despertar é extremamente experimental, com a Síndrome do Nocaute fazendo vítimas semanais, nós arriscamos muito em busca de uma cura ou um tratamento eficaz — Dra. Anker respondeu — Nocaute está diretamente vinculado à parte do cérebro que permite à conexão ao Nexus e de alguma forma, a doença tem afetado diretamente a simulação. Você gerou dopamina em larga escala, assim como os outros dois voluntários, e a doença fez o Nexus revidar obrigando vocês a lidarem com traumas psicológicos violentos.

Esfreguei os olhos, ainda tentando assimilar o que acontecera. O Nexus era um mundo simulado, parecido com o meu mundo de certa forma, onde as pessoas se conectavam e entravam em uma estase que os permitia viver uma vida diferente naquele universo simulado. As memórias do indivíduo de sua vida real desapareciam, permitindo uma imersão total naquele mundo. A simulação era constante e desde sua criação, acompanhava uma linha de tempo contínua que atualmente se encontrava no século vinte e um, quase quatro séculos atrasada em relação ao meu mundo. A maneira como minha sociedade usava o Nexus era variada; alguns tratavam-no como um método de entretenimento, outros estudavam o Nexus em busca de conhecimento ou poder ou esclarecimento sobre a vida e o universo.

Mas a CPN usava a simulação para tratar ou curar diversos tipos de doenças, que muitas vezes eram vistas como incuráveis.

— Descobriram algo, pelo menos? — perguntei, quase irritada de tão frustrada e dolorida.

— A relação entre o Nexus do servidor e a Síndrome de Nocaute é muito intensa e intrínseca — a mulher explicou — Como você estava conectada através da paciente e não diretamente à simulação, o computador parece ter entendido que seus níveis de dopamina e oxitocina estavam altíssimos, e o Nexus revidou para reduzir essa anomalia.

— Mas isso não faz sentido, não é? — resmunguei, confusa — Eu estava claramente deprimida no Nexus. Por que meus níveis hormonais estariam altos quando eu tinha depressão?

— Eu realmente não sei, Thea — a voz da doutora estava cheia de dúvidas e perguntas internas, eu sentia; devia ser tão difícil para ela não saber sobre aquilo quanto era para mim — Assim que a estabilizamos, pedi para que rodassem todos os tipos de testes físicos possíveis em você. Nada foi indicado, aparentemente você está saudável. Sua parada cardíaca é, de certo modo, inexplicável.

Mergulhei em um silência desconfortável por alguns segundos, pensando. Esfreguei o rosto nas mãos, observando a doutora se levantar e lançar-me um olhar preocupado.

— Thea, quero que entenda que as circunstâncias eram extremas, o Nexus revidou com toda a força possível contra você. Os outros dois voluntários de longe tiveram seu impacto na paciente — Meredith proferiu, gentilmente; seu rosto severo não combinava com seus modos — A doença usou o Nexus para destruir a variável que estava como anomalia no sistema.

— Você fala como se o Nexus fosse algo vivo —retruquei.

— De certa forma, é mesmo — ela cruzou os braços, inquieta — O Nexus é uma inteligência artificial criada por humanos e como toda criação humana, ele incorpora partes da personalidade de seus criadores. Mas, diferente de um computador tradicional, o Nexus é ativado através de mentes humanas. Com tantas personalidades reunidas, o Nexus se adapta e filtra; nós achamos que ele está se tornando cada vez mais independente.

— Que coisa mais assustadora — suspirei, ponderando a hipótese daquela inteligência se tornar plenamente independente e os resultados na minha mente eram… terríveis, no mínimo.

— Você precisa parar de se culpar ou de procurar uma resposta para o que aconteceu, Thea — eu já esperava que ela disse aquilo, sua voz séria outra vez — Vá se distrair, descanse. Recupere suas forças. Como você mesma disse, é uma prodígio, seus talentos são insubstituíveis.

A mulher deu-me as costas e começou a andar pelo corredor. Incomodada ainda, chamei-a. Ela virou-se para mim, um olhar de piedade em seu rosto, como se ela fosse capaz de entender o que eu sentia naquele momento. Ela não era, mas sua tentativa de empatia era admirável.

— Quando posso voltar, doutora? — perguntei, ansiosa. A minha vida se resumia em visitar o Nexus, o que levava a um problema constante na minha sociedade: o vício.

Nem sempre o Nexus era cruel e quando não era usado para tratamentos, muitas pessoas visitavam a simulação em sua versão mais pura para viver vidas melhores ou mais felizes. E elas constantemente voltavam para lá, vivendos dúzias de vidas felizes, melhores, mas que não eram suas vidas.

A doutora me deu um sorriso triste, seguido de uma resposta que, no fundo, eu já sabia.

— Seria melhor que você se afastasse um pouco do Nexus, Thea. Só por um mês ou mais. Não faço ideia do que aconteceu com você, preciso entender isso, para depois permitir que você retorne.

— Eu entendo.

Quando ela me deixou no mesmo lugar que antes, olhando por uma janela de cristal, eu percebi que eu não entendia mais nada.

LIRA — PARTE DOIS

Lira, parte dois

As vidas que o Nexus simula são normais. Não há nada de extraordinário lá, é um mundo mais antigo do que o meu atual, mas que simula muitas coisas que eu conheço e algumas que nunca ouvi falar. A mesma pessoa que está lá por entretenimento divide um mundo com alguém como eu, por exemplo, que faço parte de programas de medicina. É exatamente como viver sua vida, mas é um jogo; mesmo na área médica, é um jogo e neste caso, é um jogo valendo vidas.

Para cada um mês na minha realidade, o Nexus equivale a vinte anos e toda vez que você inicia uma nova vida lá, você não se lembra de nada sobre a realidade a que pertence. Tudo tem que ser reaprendido: comer, beber, andar, falar. As características físicas, psicológicas, os talentos e defeitos, nada é como você é; é uma vida diferente, uma pessoa diferente. Contudo, quando você morre no Nexus e desperta na realidade outra vez, as lembranças daquela vida voltam e é uma experiência única, mesmo que repetida milhares de vezes.

Eu sentei em minha cama, ainda molhada da ducha recém tomada. Apesar da brisa gelada, o frio não me incomodou; nada seria como frio que eu sentira quando despertei. As lembranças ainda eram vivas e intensas e os laços deixados para trás ainda eram mornos e dolorosos; por mais irreais que as experiências lá sejam, no fundo, o fato de não saber de tal coisa torna esses laços intensos e importantes.

— Lira, meu nome era Lira — murmurei, encarando minha figura no espelho. As memórias se encaixavam devagar agora, mas faziam mais sentido que antes.

Lira tivera uma vida difícil; depressiva, complexa e constantemente dissociativa, eu estava sempre a alguns passos do suicídio. Mas de alguma forma estranha, eu encontrava maneiras de ter esperança, embora isso não durou o suficiente. Ela não tinha muito a ver comigo: era um pouco mais baixa, tinha cabelos lisos e escuros, olhos cinzentos. Era magricela, em partes porque se alimentava mal, e não tinha nenhuma graciosidade. Suas mãos eram desajeitadas, e ela frequentemente falhava em tudo o que fazia.

O Nexus reage, sempre; para cada tentativa de Lira, a Síndrome do Nocaute triplicava a intensidade do Nexus e destruía sua força de vontade. Eu me erguia, é claro, contudo, fracasso atrás de fracasso derrubariam qualquer indivíduo. No meu caso, eu mesma me derrubei.

Como eu disse, eu era um prodígio, logo a minha mente sempre foi saudável e estável e para mim, pessoas depressivas eram um mistério que eu enxergava com medo. Quando eu passei a auxiliar pacientes com problemas psicológicos, eu passei a enxergar o conflito interno que essas pessoas sofriam e aquilo me motivou a ajudá-las como eu podia. O alívio delas após o tratamento, era algo que me enchia com uma sensação de conquista insubstituível.

Mas mesmo sendo um prodígio, daquela vez o Nexus me quebrou. Fora brutal, consumindo cada pedaço de mim de dentro para fora. Normalmente, quando o tratamento de um paciente gerava os resultados esperados, os médicos instigavam o Nexus a matar os voluntários, trazendo-os de volta à nossa realidade. Boa parte dessas mortes eram acidentais dentro do Nexus, como batidas de carro, às vezes eram assassinatos. O suicídio, contudo, era uma falha no voluntário, que se mostrava incapaz de resolver o problema. Um prodígio não deveria falhar assim, mas eu, de certa forma, falhei.

Mil coisas se passavam na minha cabeça enquanto eu me vestia, ponderando cada aspecto da vida de Lira e o que poderia ter me induzido ao suicídio. A doutora poderia ter obrigado o Nexus a me forçar à morte, mas ela parecia perturbada demais para ter feito tal coisa. A minha quase morte de verdade era o grande ás da questão; o Nexus é praticamente seguro, com exceção de problemas internos que acontecem uma vez a cada século e mesmo assim, as medidas de segurança salvam todos os visitantes de lá.

— Algo me escapa — murmurei para meu reflexo no espelho, o cabelo molhado pingando sobre minha blusa, aquela sensação incômoda de tecido úmido contra a pele.

E algo realmente me escapava, e não importava quantas vezes  eu revivesse a sensação de ter me jogado de uma ponte, eu não conseguia encontrar uma resposta adequada.

* * *

O mar onde Lira morreu era cinzento, escuro, e violento. Frio como os polos de seu mundo, meu mundo. Ela não tivera ninguém com quem se importar, nenhuma família, ou amigos, ou alguém. Eu me achava solitária na minha realidade futurista, de vidros cristalinos e luzes de neon, mas Lira… Ela não era solitária, mas estava imersa numa solidão que a impedia de encontrar a si mesma. Minhas conversas mentais comigo mesma eram impossíveis para ela.

Eu precisava andar para espairar a mente, principalmente agora que estava afastada da CPN, sem poder fazer o que eu sempre fazia. Havia lacunas na minha mente sobre a minha vida como Lira que não fazia sentido; alguns detalhes faltavam.

As ruas extremamente limpas de Nova eram um contraste ofensivo contra o mundo que eu deixara no Nexus, um mundo antigo e cheio de violência e brutalidade. Telões digitais exibiam hologramas de propagandas e notícias, que eram sempre a mesma coisa; minha sociedade havia atingido o pacifismo e a notícia mais gritante era quando alguém se divorciava ou vendia seu imóvel. Não era perfeita, mas estava perto disso.

Cheguei diante de um prédio feito de placas solares espelhadas, altíssimo, tanto que olhar de baixo para cima me causava vertigem. Ali era um dos principais pontos do Nexus para entretenimento, e uma das bases do servidor da inteligência artificial. A empresa por trás daquele prédio se chamava Flamel e eles se dedicavam a fornecer acesso ao Nexus à todo mundo que desejava se aventurar na simulação com segurança. Eram extremamente restritos com a quantidades de vezes semestrais que um indivíduo poderia acessar o Nexus, uma vez que o vício era algo terrível, mas a concorrência da Flamel nem sempre visava evitar que problemas assim acontecesse. Como eu disse, minha sociedade estava muito perto da utopia, mas ainda havia defeitos.

Alguma coisa na decoração metálica, e as luzes roxas e douradas, me fizeram mergulhar num estupor de lembranças a respeito de Lira. Sua vida infeliz não tinha um propósito, não mais do que esperar que um dia as coisas ficassem mais fáceis mas nunca ficavam. O Nexus não permitia isso, não quando o Nocaute o influenciava a ser brutal na hora de aniquilar qualquer um que estivesse ali, independente se fosse um explorador ou um voluntário da medicina.

O vazio que Lira sentia, eu sentia agora também. Diferente dela, eu tinha um propósito, tinha pessoas em minha vida apesar dos pesares e eu tinha um foco; e agora, CPN me deixava afastada da única coisa que eu fazia bem na vida. Eu me sentia exatamente como Lira.

GAEA — PARTE TRÊS

Gaea, parte três

— Você parece abatida — a voz de Gaea ecoou em meus ouvidos, mas parecia distante. Precisei balançar minha cabeça para recobrar meus sentidos, meu rosto parecia dormente.

— Só estou cansada — falei, o que era em partes, verdade. Mesmo assim, Gaea não pareceu acreditar em mim e lançou-me um olhar conflitante — Toda essa situação está muito além do que eu estava acostumada.

Como fundadora da Flamel, Gaea sempre tivera em mente, a recuperação de pessoas que eram viciadas pelo Nexus. Ela própria havia passado pelo mesmo e com muito esforço, foi capaz de deixar de lado o vício e usou sua fortuna para ajudar pessoas que passavam pelo mesmo problema. Falar sobre nossas vidas no Nexus é algo considerado impróprio, para não dizer tabu, uma vez que aquela vida é algo irreal e descartável, de certa forma. Mesmo que duas pessoas se apaixonassem no Nexus, elas jamais voltariam a se ver na realidade porque as chances de elas se gostarem outra vez era, de certa forma, impossível e isso ia para além do âmbito romântico. Gaea, contudo, quebrou seu sigilo e contou, diante de toda a impreensa, sobre uma de suas experiências.

Seu vício no Nexus fora destruído, parcialmente, por sua última experiência na simulação. Ela explicou que, ao usar o Nexus para ter uma vida quase perfeita, ela começou a perceber que algo estava errado e que, em alguns casos, o indivíduo seria capaz de perceber que a vida que viviam era uma simulação. Então, ao notar isso, ela entrou em choque e se matou, acordando de volta na realidade.

— Talvez Meredith esteja certa, você deveria descansar e se afastar um pouco disso, sabe muito bem o que acontece com os viciados — Gaea falou, suavemente.

— Não sou uma viciada, Gaea! — murmurei, ofendida.

Ainda não, mas se continuar nesse ritmo vai ficar mais difícil abrir mão do Nexus e daí para frente é uma ladeira quase sem fim, Thea — a mulher respondeu — Você entende os riscos, sabe que boa parte das pessoas que se envolvem com o Nexus acabam com transtornos dissociativos, depressão, Borderline, ansiedade, a lista é infinita… É por isso que impomos limites.

— Eu sou uma… — comecei, mas Gaea ergueu a mão em um movimento gracioso e fugaz, me interrompendo.

— … uma prodígio, eu sei.  Mas você usa isso como justificativa para um comportamento de alguém que quase não consegue viver sem o Nexus — ela lançou-me um olhar duro que percorreu meu corpo, quase me julgando a respeito de algo que eu já sabia ser verdade. — Está ficando mal, Thea. Não importa quanto tirou naqueles testes, na prática é diferente. Está lidando com problemas pesados de pessoas reais, eventualmente isso atinge a todos nós.

— Eu só quero entender porquê eu quase morri de verdade, Gaea, qual a razão de eu ter me matado. Só isso.

Gaea suspirou, balançando a cabeça em um gesto claro de desistência.

— Thea, você sabe o que eu passei — disse — Não há coisa pior no mundo do que descobrir que você vive uma simulação, que nada daquilo é real. É pior ainda quando você não sabe que existe algo além da morte, um lugar ao voltar. Quando me matei no Nexus, eu só queria que a sensação de vazio sumisse; eu não lembrava de nada sobre a minha realidade. Eu só sabia que aquilo era irreal e algo estava errado.

Algo no que ela disse fez-me lançar a ela um olhar surpreso, quase indignado com a obviedade das coisas. Foi como se algo clicasse em minha mente, um som suave de informação sendo liberada. As memórias de Lira entraram nas lacunas, em partes.

— Gaea, eu… Você se lembra como se sentiu quando despertou aqui? Suas lembranças, as sensações daquela vida? — perguntei, quase trêmula.

— Pouca coisa, já faz anos afinal… Eu me lembro do choque, e eu me lembro pouquíssimo sobre a vida antes… Só me lembro que me matei por causa da simulação, da descoberta… — a voz dela era hesitante, como se ela buscasse pela informação mas não conseguisse encontrar, como se houvesse lacunas — Algumas coisas sobre antes da morte são claras, outras nem tanto.

— Gaea! É isso! — exclamei, levantando-me da cadeira, o corpo inteiro trêmulo. Minha respiração estava acelerada, assim como meu coração; uma sensação gelada desceu pela minha espinha, eriçando-me os pelos do corpo, um choque e surpresa se espalhando por mim.

— Eu não…

— Você não se lembra de nada, exatamente como eu… Faz todo o sentido, Gaea — eu mal conseguia ouvi-la, de tão exasperada que estava com aquela informação.

— Eu não entendo, Thea — Gaea exclamou, o mais alto que pôde sem gritar — Do que é que você está falando?

Segurei-a pelos ombros, tentando não tremer, mas era difícil. Minhas mãos geladas pareciam suar.

— Gaea, você não se matou porque descobriu sobre o Nexus — eu expliquei, a voz se atropelando para formar as palavras, a minha memória se tornando clara como água — O Nexus matou você.

* * *

— Dra. Anker! Dra. Anker! — eu exclamei pelos corredores da CPN, passando afobada pelo mesmo local onde eu estivera sentada quase vinte e quatro horas antes.

Empurrei as pessoas, quase sem consciência do que fazia, enquanto eu formulava a minha teoria mentalmente. E mesma com quase toda a minha memória restaurada, ainda faltava algo, alguma coisa que era essencial para eu entender o que diabos acontecera.

— Thea? — a mulher levantou-se de supetão assim que eu entrei na sala dela, escandalosa — O que houve? Você está bem?

— Eu… eu… eu não sei — ofeguei, apoiando uma das mãos na parede — Visitei Gaea, sabe? E ela me contou… sobre a experiência dela no Nexus.

A doutora balançou a cabeça em reprovação.

— Eu pedi para você descansar e você foi visitar a criatura mais polêmica quando o assunto é Nexus? Thea! — Meredith falou, sua voz alarmada — Nós quase perdemos você hoje. Esqueça isso por um momento, a última coisa que você precisa é do Nexus agora!

— Ouça-me, Meredith! — exclamei, tão exasperada que meu corpo parecia prestes a entrar em colapso. Cerrei os punhos para evitar a tremedeira, e as lembranças das crises de ansiedade de Lira vieram à tona e eu percebi que eu estava bem perto de ter uma também — Gaea explicou que, durante sua estadia no Nexus, ela percebeu que aquela vida era uma simulação. Algumas pessoas lá sempre desconfiaram, mas ela realmente descobriu e o Nexus, para consertar a falha, fez com que ela se matasse.

— Thea, não faz sentido. Mesmo que ela tivesse descoberto, dizer que o Nexus… matou ela, não faz sentido algum.

— Imagine que ela espalha a notícia de que aquele lugar é uma simulação, de que aquelas vidas são virtuais? Mesmo que eles demorassem para aceitar, ela seria capaz de provar, ela encontrou algo… Meredith, eu…

A doutora cruzou os braços, depois de esfregar os olhos com um das mãos.

— Eu entendo que esteja frustrada, acredite em mim, eu também estou — sua voz vinha com uma delicadeza que aos poucos me deixava irritada, palavra por palavra — Mas o que você está fazendo é falta de bom senso. Sei que é difícil aceitar isso, mas eu lhe disse, o Nexus é complexo e com a influência do Nocaute, afetou até mesmo você.

— Não me importa o que me afetou, doutora — retruquei, esfregando as têmporas, tentando lembrar daquele ínfimo detalhe que faltava, mas parecia perdido na minha cabeça — Eu quero lembrar, preciso lembrar do que aconteceu!

— Thea, você precisa se acalmar! — a doutora falou, com urgência, mas eu mal a ouvia, as mãos envolvendo meu próprio rosto, minha cabeça latejando somente com o esforço mental de repassar tudo o que eu lembrava da vida como Lira. Eu andava de um lado para o outr

—Um detalhe, uma única memória… É tudo o que falta! — eu balbuciei, em estupor.

— THEA!

Meredith gritou comigo, sua expressão severa atenuando-se com um olhar de preocupação. Eu parei de me mover e olhei-a, estupefata.

— Você precisa se acalmar ou ver ter que anestesiá-la, você não está bem! — a médica redarguiu — Esqueça isso! Vá para casa, descanse sua cabeça e ache um hobby, porque você vai precisar se afastar da CPN.

— Eu não…

— Sinto muito, Thea, mas no estado em que você está, você corre o risco de ser tachada de viciada e honestamente, você está muito perto disso — Meredith murmurou, franzindo o cenho numa expressão de aflição; eu não sabia como reagir — Thea, se continuar nesse ritmo, vai acabar sendo diagnosticada como Transtorno de Personalidade Limítrofe e nunca mais vai poder ajudar-nos como voluntária. Vá, Thea! Descanse, pense bem no que está acontecendo com você.

Eu fiquei imóvel, chocada, por vários segundos. Então, voltei a mim e, magoada, deixei a sala dela. Eu já imaginava que aquele dia chegaria, o dia em que eu ficaria tão imersa no Nexus que eu acabaria precisando da ajuda dele. A pior parte da situação era a negação e ela não saía de mim.

Negar era sempre mais fácil.

Em vez de ir para casa, eu subi até o topo do prédio da CPN. Ali, era comum encontrar fumantes, mas a noite já caía sobre a cidade e o céu era pontilhado de estrelas prateadas e douradas, brilhando distantes como centenas de milhares de vagalumes minúsculos; desse modo, só estava eu ali.

Observar a cidade dali de cima era irracional; prédios altos ficavam pequenos, e milhares de luzes neon luziam em cores distintas, do roxo ao amarelo ao azul ao branco ao dourado e assim ia, iluminando Nova e suas janelas de cristais, translúcidas. Um vento frio soprou meus cabelos e, ainda em choque pelo que Meredith dissera, subi no parapeito do prédio.

A vertigem veio, mas passou rápido demais. Abri os braços, deixando o vento desenhar minha silhueta. Lágrimas brotaram e eu senti, de novo, como se fosse Lira e seu vazio existencial. Eu passara o dia todo tentando entender como ela se sentia, quando no final das contas eu estava exatamente como ela: sem propósito ou foco ou noção das coisas. Lira acabara sendo um reflexo daquilo que eu realmente era e nada era tão assustador como aquilo.

De pé, ali, sentindo os ventos balançar meu corpo vertiginosamente, eu me senti de novo como Lira sobre a ponte, o mar rugindo sobre mim. O cheiro de sal e chuva entraram por minhas narinas, mas nada me despertou daquele estupor que era quando se desiste de tudo. Mas por quê?

As memórias eram enxurradas agora, como pequenos diamantes fluindo em água suja; eu lembrava. Meu deus, eu lembrei.

Meu Deus.

NEXUS — PARTE QUATRO

Nexus, parte quatro

— Thea! — a voz de Meredith ecoou atrás de mim, mas não me dei ao trabalho de virar-me; lágrimas desciam pelo meu rosto e o vento as tornava geladas — O que está fazendo aí?

— Eu me lembro, Meredith — eu murmurei, fungando — Eu me lembro de tudo!

— Thea, desça daí — ela falou, com leveza, em um tom baixo; aquilo me fez rir de escárnio, o choro irrompendo sem piedade.

Nunca desejei tanto que minha curiosidade e teimosia fossem inexistentes, porque no momento em que a recordação emergiu em minha mente, desejei nunca sequer ter sonhado com aquela hipótese. Era assombroso, terrível; Gaea estivera certa.

— Por favor, desça daí e vamos conversar.

— Eu percebi como Lira, que eu vivia em uma simulação — eu falei, os olhos fechados, lágrimas escorrendo entre os cílios — Que nada daquilo era real. O desespero foi terrível, imagine! Sua vida inteira foi uma mentira, um jogo de dados criado por uma inteligência artificial desenvolvida por humanos evoluídos? Não era normal.

Meredith ficou em silêncio por alguns segundos antes de seguir falando comigo, talvez com medo de dizer algo que me fizesse saltar. Nada do que ela dissesse faria isso, é claro, não quando eu já sabia tanto.

— Thea, eu…

— Você não faz ideia, Meredith, de como a sensação é horrível — minha voz saiu rouca e trêmula, como se me faltasse força — Não há mais nada para acreditar, porque tudo é uma mentira.

— Como foi que você descobriu? O Nexus… Ele deveria impedir que isso acontecesse!

O vento veio com mais força e eu abri os olhos, os braços abertos. A cidade luzia com meus olhos encharcados, as luzes borrando-se em uma mancha cintilante.

— Uma falha… uma falha no sistema, tão pequena, tão intensa! — expliquei, aflita — Um erro nos dados que danifica pequenas porções da simulação, é visível, audível…

— Uma falha tão grosseira? Em nosso sistema? — Meredith parecia confusa, e não seria para menos. Ela também parecia mais próxima de mim, sua voz parecia mais perto de mim.

— Não, uma falha no sistema deles — eu sibilei, quase temendo dizer aquilo — Nós somos uma simulação.

Meredith soltou um gemido de dúvida e expliquei a ela, meio em choque, meio aflita, o que acontecera no Nexus. Que uma anomalia surgiu enquanto eu usava um computador e eu vi a mim mesma, deitada na central da CPN, em estase. E que o fato de eu quase ter morrido de verdade tinha a ver com o fato de que, eu não apenas descobrira que eu era uma simulação enquanto Lira, mas também que era uma simulação enquanto Thea. Que nada da minha suposta realidade era verdade.

— Isso, isso é impossível, Thea! — Meredith respondeu, mas ela parecia tão em choque quanto eu; e nem era o pior de tudo — Nós… não… não pode ser…

— Nossa inteligência artificial é parte de algo maior e mais potente — cada palavra que eu dizia me instigava a pular dali; a vida não fazia mais sentido, nada fazia sentido — Quem quer que tenha construído nosso Nexus, sabia que nós éramos uma simulação e o fizeram intencionalmente. Uma simulação dentro de outra simulação.

A mulher não conseguiu falar por longos minutos e nós duas permanecemos em silêncio, mergulhadas em uma melancolia que aos poucos nos destruía porque ninguém em sã consciência viveria em paz sabendo que sua vida não é nada mais do que um conjunto de dados em algum computador. Não, não havia sentido ou propósito, nem esperança. Não havia mais nada em mim que me motivasse a ver minha vida como antes. Agora eu só via o cinza da tela de dados, mais nada.

— Se nós…

— Não sei dizer se a morte nos levaria até a fonte, ou se simplesmente nos mataria — murmurei, observando a distância entre o chão e eu e eram múltiplos andares — Não sei dizer mais nada, não sei da minha vida… Nem sei quem eu sou. O meu propósito. Não sei.

— THEA, NÃO! — Meredith gritou quando eu lancei meu corpo para a frente, o vento balançando minhas roupas e o cabelo.

Mas era tarde, eu já estava no ar. As luzes da cidade brilhavam para mim, intensas e coloridas e faixas de longa exposição, tamanha a velocidade com que eu caía. Fechei os olhos, desejando estar errada, desejando morrer e morrer de verdade, e esquecer da minha existência. Uma vida sem propósito era uma vida vazia, e eu já não tinha mais nada do que antes eu tivera.

O impacto foi forte, brutal, mas praticamente indolor. Eu estava morta no momento em que caí de costas em cima de um carro. Não houve tempo para me despedir do mundo, um mundo que sequer era real.

No mesmo instante em que o mundo e sua existência desapareceu aos meus sentidos, luz brilhou diante de meus olhos, conforme eu me sentava em uma maca de metal, parecida com a que tínhamos no CPN. Ofegante, eu me sentei depressa, tentando associar o que estava acontecendo.

Ao meu redor, telas holográficas luziam, indicando dados médicos que iam de batimentos cardíacos, pressão e temperatura do corpo. A maca onde eu estava parecia mais um casulo, ou uma incubadora extremamente larga. Toda a sala era feita em titânio, negro, e janelas de vidro liso mostravam bilhões de estrelas luzindo em um céu escuro.

Céu não, eu disse a mim mesma, com espanto mas uma certeza absurda, estou no espaço.

Só então percebi que duas moças usando jalecos brancos me amparavam, uma delas injetando algo em meu braço, provavelmente um calmante ou sedativo. A outra segurava meu ombro, gentilmente, e sorriu para mim. Eram jovens, como Meredith e provavelmente médicas ou enfermeiras.

— Você está bem, acabou de sair da estase — ela disse, tentando me amparar; eu olhei em pânico, de um lado ao outro, percebendo que eu estava viva. Ou eu havia sonhado com tudo aquilo ou minha morte me tirara da simulação. De qualquer forma, ambas as hipóteses me deixavam aflita — Esta é a nave Kios-7. Estamos em Andrômeda. Meu nome é Marylin e esta é Lily. Você está bem, está tudo bem.

Não estava nada bem, nem mesmo em um milhão de anos estaria bem. As lembranças vinham de novo, amargas e doloridos e confusas. Thea, eu pensei. Meu nome é mesmo Thea.

— Você se lembra? Quem você é? — a moça chamada Lily perguntou, docemente.

Atordoada, eu assenti devagar. Aos poucos eu assimilava tudo que minha mente recordava.

— Meu nome é Thea Gael. Eu vim da Terra. Kios-7. A última nave colonizadora. Thea… Gael… — eu murmurei, mas minha consciência oscilou.

Marylin me deitou outra vez e uma presença surgiu ao lado dela. Era um homem, alto, vestido de branco, mas não como um médico. Minha visão embaçada discernia pouco de seu rosto, mas era bonito e áustero, uma barba prateada rodeava seu queixo e bochechas. Seu cabelo, também prateado, era bem aparado e penteado para trás. Seus olhos eram cinzentos e ele tinha uma aura de alguém que passava segurança aos outros. Senti-me segura, até ouvi-lo falar:

— Olá, Thea Gael — ele pronunciou, sua voz grave, mas usada de forma gentil; eu sentia minha visão escurecer aos poucos, mas ainda pude ouvi-lo antes de desmaiar — Eu sou Nexus.

CÉU CINZA

Os dias passavam como uma brisa gelada, percorrendo seus cabelos longos e judiados, e apagando a chama que Aurora tentava manter acesa dentro de si, em vão. Ela se esvaía, lentamente, às vezes parecia tão perto de apagar que o alívio surgia, sutil. Então, ela tornava a acender e a dor retornava, pior do que antes, pior do que nunca.

Sonhos estranhos perturbavam o pouco de sono que possuía, a exaustão mental se alastrava como uma praga pelo seu corpo. Não havia memórias da última vez em que conseguira sair da cama para fazer algo realmente útil. Impossível negar como inutilidade assombra a humanidade; abriu os olhos, já é dia. Era dia quando adormeceu; é sempre dia, mas é sempre escuro também.

Houve um tempo em que as cores eram vívidas, intensas; agora tudo mergulha em um pálido opaco que lhe dói a vista e a desmotiva. Nem o sol parece brilhar mais; ele torra sua cabeça, um calor abismal, mas não tem mais luz. Se a culpa lhe pertence, já não sabe; seu descanso se reserva a se culpar por ingenuidade.

E se doía antes, o mal que a faz agora é descontrolado. Ódio floresce em seu peito, mãos trêmulas, lábios feridos, ela é como um lobo ensandecido, o rosto mergulhado em dormência. A dor, a dor, a dor! Que falta de amor sente agora, a apatia lhe sobe as entranhas, o desespero brota em seu peito como uma flor perdida em meio a um terreno baldio. Deus, como gostaria de chorar! As lágrimas, contudo, não descem.

“Olhe nos meus olhos” repetia, encarando um espelho sujo num banheiro branco demais. Gotas de seu sangue decoravam a pia, escorrendo do antebraço. A palma suja de Aurora estampava o reflexo, vermelho-escuro que sobrepunha com perfeição seu rosto pálido, magro; olhos da cor do céu durante o crepúsculo a miravam de volta, um olhar morto e perdido. Um olhar de um soldado que retorna da guerra. Aurora parecia-se com alguém que voltara de dez delas.

“Olhe nos meus olhos” ela murmurou, os lábios estremecendo; um tom de rubro doentio lhe tomava conta, cada vez que ela mordia o lábio inferior. Seu punho direito se chocou contra a delicada lâmina, rachando-a. Aurora agarrou a borda da pia e berrou, apertando com tamanha força que quase quebrou seus próprios punhos. Outra vez seu punho direito foi na direção do espelho. Uma vez mais, uma vez mais, uma vez… Respirou fundo, tão fundo que percebeu que quase se esquecera de respirar. Cacos do espelho espalharam-se por todo o banheiro, refletindo raios de luz para todos os lados. Sangue pingava das suas juntas agora, pálidas e feridas; ela abriu as mãos diante de si, olhando-as com um apatia quase cruel.

Dedos finos e tortos, lambuzados em um líquido tão vermelho quanto o pior dos pecados; sentia tanta dor que uma ferida a mais não lhe importava. Trêmula, beirando a loucura, Aurora aproximou uma das mãos à face. O toque gelado pareceu sacudi-la de seu estupor por breves momentos. Olhando para o espelho destruído no cabinete, sua mão deslizou pela própria bochecha; um rastro de sangue marcou-a, porém, pareceu mergulhada outra vez em delírio.

Ben, Ben, Ben… Olhe nos meus olhos, desgraçado!” ela murmurou, tão baixinho que mal ouviu a si mesma. Tudo girava ao redor de Ben, todas as dores e lamúrias e desgostos; ódio lhe consumia, Aurora sentia, cada vez mais longe, sua habilidade de sentir. Esperava que morresse quando finalmente se tornasse apática; não suportaria continuar vivendo plenamente vazia.

O toque de Ben era uma lembrança alarmante, que lhe pegava desprevinida, na calada da noite, quando estava ocupada demais se embebedando. Era uma memória gélida que fazia seu corpo arder, em fúria e em desejo; descarregava as emoções nas paredes do quarto, nos partos e copos. A dor que sentia ao lembrar dele era como se cutucassem sua mente com ferro em brasa; seu corpo inteiro se tornava inútil e dormente. As lágrimas vinha, como uma cachoeira, e junto do choro desolado, vinha o grito gutural que prendia na garganta. Aurora se sentia como um monstro, prestes a se transformar e destruir tudo ao seu redor.

Você é como… uma estrela” Ben dissera, certa vez, numa época em que ela ainda não morrera por causa dele, como morrera tantas vezes mais tarde, todas as noites de todos os dias. “Um monte de energia concentrada, irradiando luz e calor e beleza… Mas eventualmente, você vai implodir e vai levar tudo ao seu redor com você.”

“Até você?” ela proferira, com uma suavidade que já não existia mais em seu ser como um todo. Sua alma se despira de tudo aquilo, ferida, corrompida. Seus olhos mergulharam nos dele, como faziam todas as vezes em que estavam juntos, harmoniosamente caóticos. Naquela época o toque dele era elétrico, superficial; a deixava estagnada, entorpecida. Por vezes, se esquecia de respirar, soltando longos suspiros quando se dava conta que lhe faltava ar.

“Com um pouco de sorte, talvez”, ele dissera, olhando-a com aquele par de ônix, que lhe causavam calafrios de uma ponta da espinha à outra. Aurora ainda se lembrava de como as unhas dele estava fincadas em seu pescoço, enquanto falava; “Que péssima estrela você seria se não me levasse junto com você, na sua auto-destruição.”

Abraçando a si mesma, seu corpo tremeu; de frio, de medo, de desgosto. Voltou a si, finalmente e notou a insensibilidade em seu corpo. Sangue lhe enchia a boca, deixando-lhe um gosto amargo e melancólico; seus olhos estavam cheios de lágrimas, cristalinas, que corriam por seu rosto, deixando rastros menores nas manchas de sangue em suas bochechas e queixo. Olhou para o espelho moído, destruído em um ataque de ódio descontrolado; ironia cruel era o que via, um reflexo detalhado de seu interior, daquilo que ela tinha dentro de si.

Tanto tempo isolada a fazia delirar, cada vez pior. Seus passos eram sempre bamboleantes, como se andasse sem rumo pelo mundo; era meia verdade. A lembrança de Ben queimou em sua mente, ardendo contra sua própria alma. Se toda vez que se desgraçasse, mergulhasse naquele inferno terrível que era sentir todas as coisas, e ver essas emoções morrerem lentamente, desejava não mais experimentar aquilo. Contudo, a sensação familiar de aquela tragédia seria única, irreversível, lhe comia o fígado. Ofegante, encarou o espelho, rachado e destruído, mas Aurora viu apenas o nada.

O AQUÁRIO

Quando eu era mais nova, eu costumava escrever muito sobre o Caos e sobre como todas as coisas do universo dependiam do Caos e tão somente dele. Eu o tratava como uma energia monstruosa e onipresente, que tinha uma beleza característica, mas uma beleza bruta. Era infernal e destrutivo, engolindo os mundos de uma só vez. E na primeira vez em que vi Aurora, eu vi o Caos em pessoa; e todos os meus conceitos foram jogados no lixo, resquícios de uma alucinação antiga.

Eu a vi primeiro, andando pelo sítio arqueológico em que eu trabalhava, uma área isolada da praia da cidade pequena da Irlanda. Os ombros caídos dela me disseram muito: uma pessoa exausta, carregando o mundo nas costas. Em seu caso, eram os mundos. Entorpecida pela presença de uma Guia, meus olhos se fecharam para o que restava dela e quando ela descobriu que eu buscava o portal para Animalia, desistiu e partiu.

A segunda vez em que nos vimos, ela me procurou às portas de minha casa, em Dublin. Olhos azuis me encaravam, desesperados, porém orgulhosos; eram brilhantes, mas escuros, como encarar um céu estrelado. Quando mais próxima, vi também que suas írises tinham leves resquícios amarelos: era um céu com um pouco do sol; Aurora era mais como o crepúsculo, mais do que como a alvorada. Os cabelos louros eram escuros e ela os prendia em um coque bagunçado, que sofria para sustentar o peso da juba. Tinha olheiras fortes e estava muito pálida. Olhou-me com intensidade, medindo-me de cima a baixo, até que me pediu abrigo e orientação. Atrás dela estavam os companheiros fiéis: o forasteiro devoto e o profundo cético, parecendo tão cansados quanto ela. O homem era mais alto que os dois e a observava com olhos cheios, preparado para salvá-la de qualquer coisa. O rapaz parecia só querer ir para casa.

Dei um quarto para cada um, deixando o mais perto da biblioteca para ela, sabendo que de madrugada ela levantaria, sem sono, e vagaria pela casa em busca de alguma distração. A responsabilidade nos deixa exausto; a tristeza nos mantém acordados. No dia seguinte, conversamos.

Olhos tristes e perdidos me olhavam, sem fé e sem esperança. Ela usava um batom púrpura que desvaneceu após algumas horas. Em outras circunstâncias, ela talvez tivesse o retocado; daquela vez, não se importou. Pediu-me que a ensinasse, que a ajudasse a aprender seus poderes e destravá-los de uma só vez. “Eu vi o fim do mundo” ela me disse, inúmeras vezes, olhos distantes, expressão vazia “E é terrível.” Eu também vira o fim do mundo e nós tínhamos pouco tempo para torna-la poderosa o bastante para equilibrar os universos.

Pela manhã seguinte, nós já treinávamos na minha academia particular. Alta, magricela e mal-humorada: Aurora me encarava com feições melancólicas e era extremamente expressiva. Havia linhas de expressão em sua testa, uma vez que ela mantinha o cenho franzido quase todo o tempo, em uma careta de frustração por pensar demais. Sua beleza era etérea, única e estava vinculada a seu cenho franzido e seus olhos expressivos. Ela arrastava os pés para caminhar e toda vez que falhava nos exercícios de meditação, ela engolia um grito de raiva e limitava-se a cerrar os punhos. Todas as manhãs nós treinávamos, e todas as manhãs ela frustrava-se ao falhar. No terceiro dia, ela não fora capaz de abrir uma fresta no tecido dos mundos; irritada, ela soltou um urro e mordeu os lábios. No mesmo instante em que seus joelhos bateram no chão quando ela caiu, as mãos agarrando os cabelos, Jon e Benjamin correram para ajudá-la. O batom púrpura tinha um propósito, eu percebera: esconder as feridas que ela causava ao morder o lábio inferior, de onde jorrava sangue naquele momento. Aurora era exaustão e tristeza, mas ela também era fúria. Fúria, fúria, fúria. Crua e bruta.

Descobri que o fardo era demais e que o destino estraçalhava ela aos poucos. Havia passado entre ela e Benjamin, e havia um monte de sentimentos incertos em Jon. E eu me via nela como se olhar para aquela moça fosse um espelho de espíritos. Jovem, ela parecia velha e cada vez mais cansada; Aurora representava o que eu era agora. Quando eu tinha a mesma idade que ela, eu era arrogante e famosa no colégio e na universidade. A minha família era estável e tínhamos uma fortuna imensurável, o que me permitiu ser uma pessoa mimada por anos, torrando dinheiro com absurdos, enquanto mudava de graduação a cada semestre. Eu não tive amigos e era frustrada por isso; demorei a perceber que existia uma diferença entre ser popular e ser amigável. Aurora não tinha nada daquilo e enquanto eu levei anos para amadurecer e me tornar quem eu era, aquela menina precisava mudar da noite para o dia se quisesse cumprir com sua missão.

Benjamin atormentava-a o tempo todo, dizendo que deveria voltar para casa, que ela deveria buscar ajuda de um médico, que estava ficando louca. Era penoso ver os olhos dela brilhando ao vê-lo, apaixonada e destruída, desolada. Ele não acreditava; não era novidade, o equilíbrio demanda o cético, assim como demanda o iludido e aquele que se mantém entre eles. O fanatismo e a indiferença são armas contra o equilíbrio. Aos poucos, Aurora parecia ceder aos pedidos dele e Jon voltava para lhe dizer que sua missão ainda estava para ser concluída, que ela tinha um dom, que deveria cumprir com seu destino. Indiferença e fanatismo, tirando Aurora do equilíbrio, mesmo sendo ela o próprio caos.

No quinto dia de estadia, ela me contou sobre sua história com Benjamin e sobre como sentia-se vazia desde então. Magoada e reprimida, ela dependia do silêncio e da paz para organizar sua mente, que estava sempre um caos incontrolável. “Você é o Caos” eu lhe disse e ela deu-me um sorriso que só lhe cobria os lábios, não os olhos. “Eu sei” ela respondeu, fria. Ela o chamava de “Ben” e evitara-o durante muito tempo, simplesmente porque era assustador demais gostar de alguém. Sua insistência obrigaram-na a buscar nele o que ela não encontrava em lugar nenhum mais. Ela falava dele com uma mistura de paixão e melancolia desesperançada, olhos brilhantes, porém a expressão vazia. Benjamin desistira dela, ela dissera, depois que ela decidira se apegar a ele. “Rejeitada e trocada” ela murmurara, os olhos distantes “Eu não fui nada para ele.” Nenhuma só lágrima caiu ali, para meu espanto. Não me assustei entretanto, quando de madrugada, ouvi-a chorando. Tanta dor e tantas lágrimas por uma coisa que eu não era capaz de conceber.

Os dias que se seguiram eram assim: os treinos (que eram um fiasco) pela manhã; durante a tarde, ela escapava de Benjamin ou Jon por algumas horas, escondida na biblioteca ou em qualquer cômodo, desde que eles não a chateassem com discursos sobre loucura ou sobre destino; à noite, enquanto todos dormiam e eu trabalhava até tarde, ela enfiava o rosto no travesseiro e chorava até o raiar do sol. No décimo dia, minha agonia ao vê-la em tanto sofrimento atingiu seu ápice e decidi partilhar com ela a visão que tive antes de tomar um rumo em minha vida.

A piscina em minha casa era enorme e profunda, mas por um motivo: havia um aquário no andar debaixo da casa. A piscina era somente a parte externa visível dele, sem animais. Na parte debaixo, um salão grandioso e circular, cujas paredes eram feitas de vidro, estava um aquário gigante. A iluminação vinha da parte de dentro, azulada e tremeluzente, iluminando o chão em camadas de luz em refração. Não havia peixes, porque não era um aquário ordinário, mas uma fresta que estava aberta para um universo diferente, paralelo. Levei Aurora até lá e deixei-a assistindo maravilhada, as bolhas brilhantes moverem-se, dançando, de um lado para o outro, como estrelas salpicadas de pó cósmico. Havia estrelas e nébulas, como se o universo como o conhecemos estivesse mergulhado ali.

“É uma fresta e do outro lado, está um universo” expliquei a ela “Inatingível, uma vez que abri-lo por completo nos afogaria e atravessar a fresta é perigoso demais. ”

Os olhos dela brilharam para o aquário, como brilhavam para Benjamin. Houve um amor imediato ali que se media com o amor dela pelo cético. Ela sorriu, com os lábios e os olhos, diferente de seu hábito de fingir que estava alegre, o olhar sempre morto.

Vê-la pelas costas, em pé em frente à fresta, observando o brilho que inundava a água, era uma visão mágica que aos poucos se tornou inquietante. Aurora gastava as noites observando as nébulas iluminarem a água e a poeira cósmica respondia a seu humor, trocando de cores, afundando o salão em um mar de espectros coloridos distintos. Azul, laranja e roxo, verde e dourado, e o vulto escuro de Aurora parado ali, maravilhada, as mãos sobre o vidro, cravando as unhas, numa tentativa de atravessar para aquele universo, longe de tudo e todos.

Ela chorava ali também e seu sofrimento ainda era intenso, mas o aquário cumpria sua função: força-la a sentir. Cada vez que Aurora reprimia seus sentimentos, ela os trancava e os destruía, de modo que com o tempo ela se afundou em uma dormência indiferente que poderia lhe custar a vida. Queria confortá-la, mas não era possível. O aquário trabalhava sozinho.

Quando Jon a acompanhou em uma das noites, o lugar luziu dourado e vermelho e os dois ficaram sentados, encarando o brilho e as estrelas que nadavam ali, Aurora em prantos e Jon pasmado. As coisas pioraram quando Benjamin tentou falar com ela. O aquário brilhou enlouquecido, trocando de cores como um prisma no sol.

“Saia daqui” ela lhe dissera, a voz embargada “Eu não quero te ver.”

Antes que ele tentasse insistir, tirei-o dali e ordenei que não a aborrecesse. Ele me lançou um olhar perdido, um olhar que entendia muito bem.

Ver Aurora ajoelhada, com o aquário brilhando em mil cores de novo, era doloroso e trazia memórias horríveis. Ela abraçou os joelhos e soluçou alto, partindo meu coração com cada pedido de misericórdia que fazia.

Em um tempo passado, eu estivera no lugar de Benjamin e destruíra alguém que me era devoto demais. Impassível e apaixonado, deixei-o no altar porque eu me enchia de dúvidas e de medos e não era capaz de nutrir por ele o mesmo tipo de devoção nem mesmo qualquer sentimento que fosse recíproco. Falhei em dizê-lo antes que nos conhecêssemos melhor; permiti-o entregar-se para mim e eu o destruí, sem qualquer misericórdia. Ver Aurora em prantos me doía em um nível pessoal; ela era Liam e eu era Benjamin. Permitimo-los a amar-nos, quando não sentíamos nada; Benjamin foi mais rápido do que eu, não esperou pelo altar.

Ver Aurora ali, a silhueta contornada pelas luzes coloridas, como se beijada pela Aurora Boreal, me trazia uma dor horrível e desejei consertá-la onde falhara em consertar Liam. “Ele me amou” pensei ali, ouvindo os soluços desesperados de Aurora “E eu parti seu coração em níveis tenebrosos.”

Com o tempo, passei a me preocupar, uma vez que intenção de a apresentar ao Aquário da Harmonia, como eu o chamava, era para que aliviasse sua angústia. Todas as noites ela estava lá e todas as noites chorava, às vezes em tamanho sofrimento, que eu não podia me controlar e chorava também ou então ia embora, quando se tornava insuportável demais. Minha tentativa de salvá-la parecia desgraçá-la ainda mais.

Depois de um tempo, desisti de vê-la porque a dor que emanava dela era horrível e só de imaginá-la sentindo aquilo, me dava arrepios. E se havia um Deus ou se o Universo me ouvia, eu implorei por misericórdia para aquela moça.


Misericórdia. As anotações de Audrey terminavam com aquela palavra. Aurora estava em prantos de novo, em frente ao aquário, largada no chão. Aos poucos, enquanto lia, sentia raiva de Audrey, mas depois esqueceu. A mulher fizera de tudo para ajudá-la, não podia culpa-la por meia dúzia de anotações que sequer era ofensivas. Audrey era uma observadora e pessoas assim gostavam de observar.

Desolada, Aurora encarou o aquário reluzente. Todas as noites estivera lá e sentira a influência harmônica do universo paralelo ali exposto, mas a dor que sentia nunca cessava. Vinte dias seguidos e ela não conseguira parar de chorar em nenhum momento. Colocou as anotações de Audrey no chão e enterrou o rosto nas mãos.

Gritou, um som abafado, longo e alto. Sentiu o peito doer e o desespero cair sobre ela. Audrey dizia que o aquário deveria ter funcionado, mas ele falhara. Era bem simples: as cores respondiam de acordo com as emoções. Quando ficava azul, era porque o equilíbrio havia sido atingido. Quando Ben a atormentara, ele brilhara intenso, mudando de cores tão depressa quanto o piscar de olhos dela: as emoções dela viraram um caos brutal outra vez, um caos que ele alimentava, forçando sem querer sobre Aurora um desejo desesperado de tê-lo e de amá-lo e de destruí-lo por feri-la tão profundamente. Sem luz, o aquário diria que as emoções haviam morrido e Aurora notara como aos poucos ele parecia desvanecer, cada vez mais fraco.

Misericórdia, misericórdia. — murmurou, balançando a cabeça de um lado para o outro. — Eu já não aguento mais!

Aurora respirou fundo, segurando outro soluço e encarou a fresta do universo paralelo. Apertou o peito com força, sentindo um desespero súbito, que aos poucos foi sumindo até não restar mais nada. O aquário parecia não se capaz de curá-la, de forma alguma e, se continuasse ali, ela choraria pela eternidade ou até que finalmente tirasse a própria vida. Fechou os olhos e sentiu a dor que a consumia voltar, desta vez mais forte e mais profunda. Ela enxugou o rosto com as mangas da blusa, contudo, duas lágrimas ainda ousaram cair pelos olhos fechados. Aurora gritou outra vez, esticando o pescoço, o rosto voltado para o teto. Apertou o peito com mais força, tentando arrancar nas mãos o desespero.

Esvaziou-se de tudo o que sentia, adormecendo tudo dentro de si. O aquário não funcionaria com ela; estava destruída. Não havia harmonia dentro dela, somente o caos e o caos a engoliu outra vez, de uma forma que ela sabia agora, era permanente

— Eu não sinto nada — ela gritou, encostando a cabeça no chão gelado por alguns segundos, depois retornando a posição inicial, o rosto encharcado de lágrimas de novo — Por favor… Poupe-me dessa dor! Eu não aguento mais!

O corpo parecia dormente e insensível, gelado. Aurora abriu os olhos e não viu nada. O aquário escurecera.

ARRANHA-CÉUS

O céu era da cor de cimento fresco e parecia enclausurar Aurora naquele mundo tenebroso. Ofegante, ela levou as mãos ao peito, enfiando os dedos contra a blusa de algodão. Sentia sua respiração tornar-se cada vez mais difícil e rústica.

As pernas doíam, vacilantes; não sabia por quanto tempo mais conseguiria correr. Talvez mais um quilômetro ou menos. Sabia que se parasse, desabaria em todos os sentidos possíveis.

O asfalto estivera quente nos últimos dias, dias estes em que gota nenhuma de chuva se atrevera a cair. O sol torrara o negrume do chão, tornando-o mais febril do que Aurora nos meses passados. Agora, enquanto corria descalça por ruas e avenidas movimentadas, Aurora sentia o toque bruto e gelado do chão; seus pés ardiam e estavam dando cãibras, tão escuros de sujeira quanto o céu acima de sua cabeça.

A dor em seu peito afogava as dores do resto de seu corpo. Enfiou os dedos na carne de seu pescoço pálido e manchado com marcas vermelhas de arranhões que ela não podia controlar. Atravessou dois cruzamentos pelo meio da rua, de olhos fechados. Ouviu mil buzinas soarem em uma melodia caótica, mas Aurora era o próprio caos e o barulho não a fez abrir os olhos. Nenhum carro sequer raspou nela e ela, ensandecida, não se importava.

Quantas garrafas tinha bebido? Duas? Três? Não era capaz de se lembrar. Seu sangue vomitava álcool, álcool demais para uma moça tão jovem, álcool demais para uma moça… Pensava estar bêbada o suficiente para ser incapaz de andar, mas o desgosto a mantinha sóbria. Que forças tinha a vodca contra o desgosto? Aurora não tinha respostas, era esse seu dilema.

A paisagem passava por ela conforme ela passava pela paisagem, feito uma flecha desordenada. Casas coloridas viravam borrões meio luminosos, carros escuros viravam sombras ruidosas, pessoas viravam vultos desanimados. Aurora não ia pela calçada, mas pela rua, cruzando motos e caminhões, obrigando motoristas a buzinar quando passava em frente a seus carros e ônibus sem sequer olhar. Não tinha mais respeito por leis, nem mesmo pela vida.

Suor escorria de sua testa, grudando os cabelos escuros contra um rosto pálido, magro e adoecido. O vento gelado, contudo, não permitia que Aurora sentisse calor. O pedaço de gelo que tinha em si só lhe permitia sentir frio. Olhos opacos rodopiavam furtivos em suas órbitas, alucinadamente procurando um caminho que não conseguia encontrar. Não sabia quantas ruas correra e a cidade era grande o bastante para perder-se com facilidade. Pensou em Ben, longe, distante demais para ela implorar.

A chuva desceu em uma só cortina, com uma força imensurável. Os punhos cerrados de Aurora fecharam-se com ainda mais força. Um trovão rugiu perto de onde ela estava; alto, forte, gutural, como se fosse um dragão adormecido que acordara em plena fúria. A chuva caiu com mais força.

As roupas brancas dela ganharam tons transparentes, que em um outro dia talvez, Aurora se preocupasse. Ali, ela não se importou, sua mente focada em fugir de algo que ela não conseguia ver. Olhava freneticamente para trás, mas só via faróis e gotas grossas de chuvas, misturando-se na atmosfera, criando um borrão indiscernível de luz e água e refração. Ninguém a seguia, Aurora fugia de si mesma.

A escuridão da noite era tanta que ela já não enxergava muito bem o caminho que seguia, mas prosseguiu. Não sem medo, porque Aurora era o medo, cheia dele, até o céu de sua boca, até afogar-se nele. Abriu os braços para abraçar a escuridão, contudo, falhou; era o frio tentando matar o que já estava morto. Lembrou-se de Ben dizendo-lhe que o mundo era um lugar vazio e escuro, e que deveria aprender a abraçar e incorporar a escuridão para uma vida menos miserável. Ben tinha todas as respostas e se negara a dá-las a Aurora.

“Eu não a amo” ele dissera, enchendo Aurora de uma dor que ela não conseguia discernir “e nunca vou amá-la.”

Quis chorar, mas já não conseguia. Tinha os olhos inchados de tanto fazê-lo, e as lágrimas que tinha haviam secado e amargado sua doçura mais rápido que veneno de víboras impregnado em uma ferida. A chuva pintou-lhe lágrimas falsas no rosto e Aurora fez bom uso dessa mentira, porém estava sufocada com coisas que não entendia e coisas que não conseguia se livrar.

O mundo ao seu redor desabava, quase literalmente. Árvores caíam enquanto um vento forte ia contra ela, forçando-a para trás conforme ela corria, sempre em frente. Os dedos das mãos começavam a doer pelo frio, mas Aurora não parou. Fosse o que fosse aquela tempestade, o que a atormentava era mil vezes pior.

A última rua que virou era uma descida enorme, com calçadas de cimento claro e azulejos da cor de giz. Os muros das casas eram de cores claras em tons pastéis, de rosa e azul ao laranja e verde, passando por ela em um borrão escuro. Os postes tinham luzes amarelas que destruíam as cores, mas Aurora não era capaz de discernir nada ali que não fosse o horizonte e mesmo este era um vazio com pontos luminosos, faróis de carro em um pano de fundo catastrófico. A água descia junto com ela, formando uma enxurrada enorme e violenta, que se debatia com o meio-fio e invadia a calçada. As pernas de Aurora estavam mergulhadas até as panturrilhas, água suja e gélida. A rua terminava em uma avenida na praia e Aurora cruzou-a sem misericórdia de si mesma.

Enfiou os pés na areia encharcada, clara e sem brilho, os céus sobre o oceano eram escuros e conturbados, raios e trovões explodindo para todos os lados, o som ensurdecedor fazendo a terra tremer. Aurora sentia a força do som estremecer seus ossos e naquele breve momento voltou a si. Sentiu o cheiro salgado do mar, o aroma da chuva, amargo e intenso, e sua tenção pareceu voltar para o lugar onde estava. Sentiu-se atordoada, os efeitos do álcool finalmente a atingindo; as mãos estavam adormecendo, talvez de frio ou embriaguez, era difícil de dizer. Fechou os olhos com força, ainda correndo pela praia vazia, e um trovão soou tão perto dela que Aurora pensou que a chuva era ela, na verdade.

Gritou, furiosa. Os punhos cerrados queimavam de frio e sentiu a dor que as unhas causavam ao fincarem-se na própria carne. Sangue escorreu das feridas que as unhas causavam e Aurora gritou mais alto. Ninguém parou, porque ninguém ouvia. Ela urrou outra vez, mais forte, mais desesperada e um trovão fez terra estremecer de novo. Aurora abriu os olhos e mergulhou de novo em sua histeria etérea, os olhos cintilando com a alucinação que a impedia de manter-se sã em seu próprio ambiente. Havia uma tempestade destruindo o mundo e uma tempestade devastando-a sem piedade.

Chegou em um píer, cheio de barracas de petiscos, fechadas e assediadas pelo vento furioso. Aurora atravessou-o sem pensar, escorregando no chão de madeira polida com os pés gelados e feridos, e caindo com um baque. Sentiu a boca sangrar, mas chuva lavou os lábios já rachados dela e com uma determinação atípica, ela se levantou e voltou a correr.

O fim do píer veio mais depressa do que ela pudera calcular. Olhou para o horizonte uma última vez, observando a tempestade monstruosa que assolaria a cidade, enquanto saltava para dentro do mar furioso. Outro trovão explodiu e o céu iluminou-se, desenhando nas nuvens com luz, onde a densidade era menor e podia espalhar a visão brilhante, criando padrões monstruosos no ar. Então, Aurora mergulhou em um oceano de gelo.

Nem mesmo a água fria a tirou de seu frenesi, meio são e meio insano, um pé em um mundo imaginário e outro em um oceano, tão real que a deixava mais fria do que já era por natureza. A água era tão escura quanto o céu, a maré violenta jogando-a para trás e depois lançando-a para frente, Aurora nadando em direção ao norte e em direção ao fundo. O sal queimou as feridas pelo corpo, mas a dor não a atingia como deveria, a perturbação do desespero em sua mente, vozes gritando em seu ouvido coisas terríveis. Ela ainda podia sentir os trovões e ouvi-los, o som abafado através da água, mas a força era capaz de estremecer mesmo o mar. Aurora sentia as vibrações, sentia o corpo sendo jogado para o fundo. Aos poucos os pulmões iam se esvaziando e logo ela precisaria de ar, e sabia que se recusaria a subir.

A voz de Ben soou como um assobio em seus ouvidos.

“Suicidas vão para o inferno” ele dissera aquilo um bilhão de vezes, assim como tantas outras pessoas diziam a mesma coisa e Aurora ignorava-os por puro desapreço.

“Você sequer acredita em Deus” ela resmungara.

“Você também não.”

“Quem é Deus perto do Diabo, Ben?”

Ben oferecera-lhe o mesmo sorriso mesquinho, a única coisa que fora capaz de oferecer que não fosse dor e desgosto e sofrimento. Dissera-lhe que ela era o Diabo e que ela destruía tudo o que tocava. Aurora sabia que era verdade, e se o mar que a abraçava tão sem medo ainda estava inteiro, é porque ela ainda não havia o tocado por completo.

Aurora soprou o que lhe restava de ar e sentiu o coração acelerar. A tempestade tornara o mar negro e agora ela nadava no escuro. As roupas a puxavam para baixo com mais força. Ela sentia o corpo dormente de frio, chegando ao ponto de quase não senti-lo mais. Livrou-se da jaqueta e continuou nadando, mesmo que seu corpo implorasse por oxigênio.

As pontadas vieram no mesmo ritmo dos trovões e raios que estavam o céu que ela quase já não via mais.

“Eles estão vindo, Ben!” ela lhe dissera, dia após dia, e dia após dia ele a ignorara.

Eles quem?”

“Eu não… não sei” a partir dali Aurora já não confiava em mais nada, nem mesmo em si mesma. Os sonhos a atormentavam com visões de tempestades ferozes e cidades arruinadas, mas eram sonhos e apenas isso. Mas o mundo seguia o roteiro, com um calor sem fim e de repente a chuva forte e a sensação de um apocalipse atormentando sua vida já tão atormentada.

Aurora surtara por tantos motivos que ela se afogava sem nem mesmo saber o porquê daquele desespero horrível.

“Não tem ninguém vindo, Aurora” ele dissera-lhe, oferecendo-lhe o mesmo sorriso mesquinho e zombeteiro, como se ela fosse um nada que ele ouvia por diversão. “Você deve estar ficando louca!”

Aurora desejou que Ben morresse com a tempestade, tão amarga e enfurecida, desejou que ele morresse naquilo que ela era e sempre fora. Água gelada invadiu seus pulmões, pelo nariz e pela boca, salgada, amarga, gelada como o Ártico e sua imensidão de gelo. O sal queimou a garganta machucada de tanto berrar e ela apertou o pescoço, parada em alto mar, em uma escuridão que se espalhava por todos os lados, exceto em raros momentos, quando raios iluminavam um céu mais negro do que nanquim.

A consciência dela pesou e escureceu. Aurora sentiu os olhos, ardendo, fecharem-se devagar.

Um barulho de passos fortes contra metal ecoou, duas, cinco, vinte, cinquenta vezes. O toque do mar frio sumira de repente, mas ainda sentia a temperatura baixa. Aurora abriu os olhos e viu-se correndo escada acima, descalça e os mesmos pés sujos e frios, em um prédio luxuoso. Ouvia o furacão rugir do lado de fora, enquanto passava por pequenas janelas que começavam a trincar com a pressão do vento. Os ouvidos dela assobiaram quanto algumas janelas estouraram.

Deu um soco na parede, sem parar de subir as escadas. Sentiu a dor e deu um suspiro. Talvez ainda estivesse sonhando, mas alguma coisa lhe dizia que fizera algo mais do que vagar em sua imaginação quando estivera no mar. O peso que sentia dentro de si, a dor angustiante que crescia junto com uma agonia insuportável só aumentara. A alucinação podia ter sido para atormentá-la mais ainda. Deus talvez tivesse dado a Ben seu coração e ele o apertava em suas mãos, esmagando-o sem misericórdia, sangue voando para todos os lados.

O instinto guiava seus passos, em direção ao terraço do prédio. Ela escancarou a porta com violência e seus olhos fitaram o céu, estupefata, com a tempestade escura e bruta que os desolava.

— Aurora!

A voz de Ben ecoou pela cobertura, enquanto os ventos varriam os cabelos ensopados de Aurora. Seus olhos se cruzaram com uma violência desumana, safiras opacas contra um par de ônix, tão fundos e inclementes que Aurora quase cambaleou. Não parou de correr, nem de olhá-lo, parado sobre o parapeito que circundava o terraço, os ventos balançando-o vertiginosamente.

— Ben — ela murmurou, indo em sua direção.

— Eles estão vindo — ele proferiu com a voz rouca.

Aurora não respondeu. Correu em sua direção, lançando-se contra ele, os braços em volta de seu tórax, o casaco escuro dele meio seco e meio quente, e forçou-se adiante. Seus pés deixaram o chão, Aurora apertada contra seu peito, as mãos de Ben rasgando seu rosto. Dor nenhuma era tão agridoce quanto aquela, ardendo de forma prazerosa e doentia.

Seus olhos se encontraram uma última vez, dois meteoros afogados em lagos azuis e turbulentos; ventos divinos tentavam puxá-los para cima inutilmente, enquanto a gravidade infernal os jogava para baixo.

A CAÇADORA DE SONHOS

Profundo em seu coração estavam todas as mentiras que contou a si mesma, de modo que pudesse dormir tranquila à noite. Sua vida sem significados, chegou a um ponto onde ela não conseguia mais mais ser ela, mas se posso dizer algo, ela jamais foi ela, ou — ela acha — ela sempre foi assim. Porque ela era um anjo, cujas asas uma vez se partiram quando caiu do Paraíso, diretamente para as profundezas daquele inferno enlouquecedor.

Para alguns, suas reclamações pareciam bobeira, mas seu coração se partiu em milhões de pedaços. “Você que comanda a si mesmo” ela dizia em prantos “Ensina-me tuas lições de amor próprio e desapego, de modo que eu aprenda a me desconectar das sombras que temo tanto amar.”

E por um longo tempo, desde que ela era criança e seu coração era o mais puro de todos, ela sabia com toda a certeza do mundo que era só, mesmo rodeada por uma multidão de faces sem expressão. Eles a jogaram na Escuridão, então Escuridão ela se tornou. Lentamente, num primeiro momento, deixando que a corrupção rasgasse sua carne e sua mente e sua alma tão facilmente a corrompendo. Então, o pesadelo veio e nunca mais se foi, trancafiando-a dentro de si mesma, todos os dias em todos os lugares, a todo momento. Porque ela sofreu e o Lobo sofreu com ela.

Aos quinze ela se perdeu, vendo mortes e vidas desperdiçadas nas esquinas do egoísmo, enquanto fingia ser altruísta, quando tudo o que mais queria era o mundo. A Escuridão cresceu mais e mais, cada vez mais intensa, lentamente destruindo seu coração e transformando-o em um monte de carne pela metade. Sangue em todos os lugares, vermelho e escuro e brilhante contra as paredes, em sua pele, em suas mãos, mesmo quando ela estava de joelhos em seu quarto escuro, implorando ao Lobo por misericórdia e ouvindo nulas respostas. Porque ela era pecadora e se afogara em Pó. Porque ela negara o Lobo e o Lobo a esquecera.

Cada dia era uma cruzada que a perseguia até seu âmago, como se ela fosse um monstro, queimando cada átomo de seu corpo tão devagar que sua dor se prolongava por dias, meses, anos. E as Estrelas governavam o antigo palácio dos sonhos, matando cada um dos pensamentos bons que ela ainda possuía, esvaziando seu corpo do amor e da paixão, e pior — da empatia. Garganta seca, o desespero, unhas roídas contra as paredes à noite — de dia, diamantes nos olhos, o disfarce ideal. Abraçando a si mesma, a murmurar as preces que ela sabia que jamais funcionariam, o Lobo fugira porque ela era herege, pecadora, louca. O universo se abria acima dela, iluminando os cabelos, os olhos, os lábios úmidos, fraturando a visão das almas desgarradas daquele lugar, ela sabia. Porque ela estava exausta e o Lobo lhe negava descanso.

As manhãs tão quentes lhe eram frias, seu ódio proliferando como traças contra os livros manchados de lágrimas, estantes empoeiradas gritando a negligência dela. O reflexo de seus olhos existia somente nos cacos do espelho quebrado, ferida no chão, por dentro e por fora. Seu grito era silencioso, o Lobo ignorando as preces, Destino a roubando o fôlego e os desejos, Tempo a matando devagar. Dez vezes seu crânio se chocou contra a parede, mordendo os lábios, ela sangrou; sangrou demais, os olhos inchados de tanto chorar, a décima noite sem dormir. Ela apertou o abraço a sua alma, implorando por piedade e ouvindo respostas nulas, o ódio a alimentando e ela alimentando o ódio. Porque ela era louca e o Lobo não tinha misericórdia.

Só mais tarde, quando percebeu que estava morrendo enquanto todos lhe diziam o contrário, que ela percebeu que o Pó era o Lobo e ela era o Pó. Suas marcas naquele mundo nada significavam se não a existência medíocre de uma menina morta que já estava morta logo após nascer. Sempre fora solitária e despedaçada, pois o Lobo lhe rompera a alma e a forçara a entrar naquele pesadelo sem fim. Ela sempre fora o Lobo e nunca a ovelha; áspera e seca, nunca suave e amável. O Pó colocara de volta as peças que lhe pertenciam e as colara uma vez mais. Porque nós somos Pó e ao Pó retornaremos.

O Pó e a Rebelião.

Ao nosso redor, acima e dos lados, nos cantos do espaço, há o Pó e ele nos abraça como uma mãe abraça um filho perdido. O Pó é a vida, e a vida é o Pó, seres simbiontes, entrelaçando-se no amargo e escuro universo. O Pó é a luz, partículas brilhantes, infiltrando-se em nossos corações e nos enchendo do pecado original. Mentira? Amor? Luxúria? Não, eu lembro, desobediência. O Pó é o temor dos sábios e dos tolos, a vertigem da Autoridade e a perspicácia daqueles que impõe sobre nós suas leis divinas, soberanas, intolerantes.

O Pó está em todos os mundos, acendendo as almas de cada uma das dimensões infinitas, cada mundo único, cada mundo oprimido da mesma maneira, todas as vezes e para sempre e sempre e sempre. E em cada mundo há um rebelde, um espírito livre, incansável e impossível de emudecer, suas vozes ecoando contra a mão dos Reinos dos Céus. Uma monarquia, veja, um Rei acima de nós, que nos controla e rege e nos mata e abandona, à mercê do Destino e das carcaças de consequências que os outros fazem.

O Pó enfurece os santos proclamados, que desvirtuam os puros e enobrecem os corruptos. As partículas douradas, assentadas nos impuros, adultos corrompidos pelos pecados. E pelos mundos, o Pó vaga, invadindo os cativeiros ideológicos e libertando a Rebelião, outra vez, uma vez mais.

Na Origem, os anjos se rebelaram, furiosos com a tirania da Autoridade e furiosos permaneceram mesmo depois de seu fracasso, que castigou todos os anjos e nós, mortais. A Autoridade nos mergulhou no remorso e nos pesadelos, nos flagelou com a Escuridão, nos afogou em caos. Estrelas pela manhã, anjos mortos, desordem. Obediência, outra vez.


O Explorador.

O Pó é um tabu para todos, em todos os cantos, no nosso mundo ou nos outros, mesmo no mundo onde o Pó se manifesta fisicamente e se transforma nas mais belas criaturas já vistas: nossa alma. Não bem a nossa, mas parecida, que caminha ao nosso lado, não presa dentro de nós. Presa, como tudo que está abaixo dos Reinos dos Céus.

O Pó é um tabu para todos, menos para ele. Uma sombra alta, imponente, inimaginável. Seu rosto se ofusca e se mistura diante de meus olhos e de minha mente; meus instintos são fervorosos, aquecidos, inquietos. Ele é calmo, mas intenso; sua fúria é o diabo na Terra, suas paixões quebram tradições. Seu nome se espalha nos corredores das universidades, sua garra influente se estende até as terras mais distantes, porém ele nunca se faz satisfeito. Ele jamais está satisfeito, e quanto mais longe vai, mais longe ainda irá. Seu horizonte é eterno.

Arcanjo, arquiteto, acadêmico, explorador. Desbravador de desertos ferventes, de mares escuros, de montanhas congeladas. Mente esculpida, corpo de mármore, alma de titânio; ele é uma tempestade sem limites, devastando o mundo de norte a sul, de leste a oeste. Ele ousa fazer o que outros homens nem ousam pensar. Quebre o ciclo, destrua o vício, mate a morte.

Asriel. Asriel. Asriel. Seu nome ecoa pelos ventos, enfeitiçando feiticeiras e quebrando alianças, criando linhagens malditas. Estrela sagrada, sua ambição não tem fim.


O Rebelde.

O ódio começa onde o amor termina, e ele persegue aquela terrível doutrina, de mãos nuas na neve, enquanto os santos o perseguem de volta. Roubaram-lhe as riquezas, mas nunca seu orgulho e inflaram sua ambição. O Pó o reviveu e o seduziu, tentando-o para que cometesse o pecado original. Desobediência.

O Pó, que no mundo dele é um monstro para as pessoas instruídas, mas para ele é a salvação. Suas mãos estendem-se cada vez mais longe e onde muitos juravam existir uma barreira (o céu), uma ponte ele criou. O preço? Altíssimo.

E a guerra recomeçou, e se ele algum dia teve medo do Reino dos Céus, não o tinha mais. Entre nosso mundo e o outro, existem bilhões de outros mundos que se atropelam, um em cima do outro, feito camadas e mais camadas de Pó em um mesmo universo. Um mundo que sonha com outros, todos os rebeldes unidos debaixo do maior estandarte rebelde que já existiu, seguindo ele até os confins da República do Céu, sua Nova Ordem Mundial, seu legado esplendoroso.

Sua fortaleza de basalto negro reluz ao sol pálido de sua República, a luz da liberdade enchendo os corações de milhares de rebeldes, prontos para morrer por seus ideais. A Torre Adamantina atormentada, noites de reflexões, sonhos libertadores. Ele sonha com a República, com fim do Reino, com a morte do Rei e seu Príncipe. Metatron.

Estrela da manhã é sua alma, ferocidade de um leopardo, a frieza da neve, embutidos em um só homem que proclama a Rebelião, apoiada por rebeldes de todos os mundos, sustentada pelos anjos, ansiosos pelo sucesso da missão que haviam fracassado. Ele reluz, dourado, O Pó nele penetrado, cada átomo de seu ser fervendo de paixão.

Destruam o Reino, ele comanda, Vida Longa à República do Céu!

E o Pó o ferveu até seu último suspiro, o tornou rebelde, desobediente, pecador original. Queimou minhas entranhas e alimentou meu fogo, mas o fez imortal. Na República, o clamor da liberdade ecoa com suas palavras finais. A Rebelião dos justos, dos anjos e dos homens, que destruíram o Reino dos Céus, em nome da paz.


Inspirado em A Bússola de Ouro, de Philip Pullman.